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sábado, 27 de julho de 2013

Na periferia do Rio de Janeiro papa visita a Assembleia de Deus.

Durante sua visita à favela de Varginha, no complexo de Manguinhos no Rio de Janeiro no último dia 25, o Papa Francisco visitou um templo da Igreja Assembleia de Deus.

De acordo com o padre Márcio Queiróz, que acompanhou o papa na favela, Francisco estava passando em frente à Igreja e quando soube que havia um grupo de crentes lá dentro pediu para entrar, pois queria cumprimentá-los. O papa conversou por alguns instantes com o pastor e convidou a todos os presentes para rezarem o Pai Nosso. O porta-voz do Vaticano, o padre Frederico Lombardi, confirmou a informação.

O ato de visitar um templo pentecostal na periferia tem um significado simbólico bastante forte. Os pentecostais são o grupo religioso que mais cresce nas regiões pobres das grandes cidades latino-americanas. As igrejas evangélicas fazem parte da paisagem urbana das favelas e bairros mais pobres das metrópoles, onde formam redes de solidariedade entre os moradores que se convertem. Estas mesmas regiões têm ocupado lugar de destaque nos discursos do papa, que também é latino-americano.

A visita de Francisco à Assembleia de Deus abre a oportunidade para a reflexão sobre o papel que as igrejas tem ocupado no cotidiano das comunidades carentes do país, e como estas se apresentam diante do olhar de outras religiões.


Com informações da agência EBC

Atualização em 2/8/2013: 

Por mais que se procure na internet, não se conseguiu encontrar sequer uma foto ou filmagem do momento em que o papa conversou com os membros da Assembleia de Deus. No entanto, há uma entrevista com um dos pastores que o recepcionou. Diferente do que informamos antes, Francisco não entrou na igreja, mas pediu para orar com os irmãos. Veja o vídeo: 




quinta-feira, 25 de julho de 2013

Ed René Kivitz participa de programa de entrevistas na TV Bandeirantes

Programa Claquete (Foto Blog Mundo Cristão)
Na madrugada do dia 23 de julho, o Pr. Ed René Kivitz, da Igreja Batista de Água Branca e do Forum Cristão de Profissionais participou do programa Claquete, apresentado por Otávio Mesquita na TV Bandeirantes. A entrevista foi motivada pelo interesse do programa em discutir o tema religião, tendo em vista a visita do papa Francisco ao Brasil.

Durante quase cinquenta minutos o pastor respondeu perguntas sobre teologia, política, religião, história do cristianismo, crescimento evangélico, fé e religiosidade, vindas tanto do apresentador quanto do público. A primeira delas foi: "Quem é Deus?", passando por perguntas como "é perigosa a proximidade entre fé e política?" e terminando com "qual sua postura com relação a temas como aborto e homossexualismo? "

Vale a pena acompanhar a entrevista, que está na íntegra no link abaixo:




quarta-feira, 24 de julho de 2013

Os "sem religião" do Brasil ganham destaque em jornais da Europa.

Capa do jornal belga Le Soir. 
Não é segredo para ninguém que o panorama religioso do Brasil tem mudado nas últimas décadas. Os principais aspectos de tal mudança são o declínio do catolicismo e o crescimento acentuado do número de evangélicos (em especial pentecostais). Os números de cada novo Censo apontam para isto (veja em nosso blog aqui e aqui).

No entanto, um grupo que têm aumentado a cada novo Censo e que nem sempre é percebido de forma muito clara é daqueles que se denominam "sem religião". Note que aqui não estamos nos referindo necessariamente a ateus ou agnósticos, mas àqueles que optaram por não estarem sob a tutela de determina instituição religiosa. De acordo com o Censo 2010, este número já alcança 8% da população brasileira. Entre 2000 e 2010 os sem religião tiveram um crescimento de 2,8 milhões de pessoas, totalizando atualmente mais de 15 milhões (destes "apenas" 615 mil se declaram ateus e 124 mil agnósticos).

Ontem, dia 23 de julho, três jornais europeus publicaram matéria sobre o perfil do grupo dos "sem religião" no Brasil. A matéria foi feita pela repórter Chantal Rayes, correspondente de São Paulo do jornal francês Libération. A matéria faz parte da cobertura européia da presença do papa Francisco no Brasil, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. Além do Liberátion, a matéria também foi reproduzida no Le Temps, da Suiça e Le Soir, da Bélgica.

Paul Freston (foto: divulgação)
Foram entrevistados  os professores Paul Freston (doutor em sociologia pela UNICAMP e professor da UFSCar) e Dario Paulo Barrera Rivera (Doutor em Ciências da Religião pela Univ. Metodista de São Paulo e professor da mesma Universidade). Freston declarou que os sem religião "são pessoas que mantêm a fé, ou pelo menos uma forma de espiritualidade, mas rejeitam rótulos religiosos. São a expressão de uma crise geral das instituições que não poupa as Igrejas". 

O professor Paulo Barrera destacou que o grupo dos sem religião não é meramente uma expressão das camadas mais ricas da sociedade, mas que se manifesta com intensidade nas regiões de periferia das grandes metrópoles, também entre pessoas com pouca escolaridade. Nestes espaços as igrejas pentecostais também aparecem com vigor. O professor destacou ainda que o fenômeno dos sem religião também está presente em outros países da América Latina, como Chile, Argentina e Uruguai.

O interesse de um jornal francês sobre o tema reflete um processo que é percebido com maior intensidade nos países europeus: a perca da centralidade das instituições religiosas na pós-modernidade. O livro da pesquisadora francesa Daniele Herviéu-Léger, O peregrino e o convertido (publicado no Brasil pela Paulinas) retrata esta questão e tornou-se referência para o estudo do tema.

Paulo Barrera (foto: Alex Fajardo)
Vale a pena lembrar que o professor Paulo Barrera, que foi entrevistado na matéria, coordena o Grupo de Pesquisas Religião e Periferia na América Latina (REPAL) que reúne pesquisadores de diferentes instituições que se debruçam sobre o estudos das formas de manifestação religiosa nas periferias das metrópoles latino-americanas. Marcos Nicolini, membro do grupo, está desenvolvendo pesquisa de doutorado sobre os sem religião, o que sem dúvida trará novos elementos para a discussão do tema. Em 2011, este blogueiro, que também é filiado ao REPAL, defendeu sua dissertação de mestrado sobre os pentecostais na periferia de São Paulo, tendo como estudo de caso o bairro de Perus (conheça o arquivo da dissertação clicando aqui).


terça-feira, 16 de julho de 2013

Um comentário sobre o encontro de cantores evangélicos com a presidenta Dilma Roussef

Ontem um grupo de cantores evangélicos, capitaneados pelo Ministro Marcelo Crivella foram recebidos pela presidenta em audiência. Segundo a assessoria de Dilma a audiência faz parte de uma série de ações promovidas com o objetivo de dar uma resposta às manifestações populares ocorridas no último mês. ´

No entanto, na audiência, tais "representantes dos evangélicos" não apresentaram qualquer tipo de pauta ou reivindicação. Tudo indica que o encontro serviu apenas para colocar tais personagens debaixo do holofote na mídia, com o objetivo de mostrar que os evangélicos são um grupo de peso e com uma grande fatia do público consumidor do país. 

Assim, me pergunto quais seriam os efeitos práticos desta audiência. Apenas dizer que os cantores oraram pela Dilma? Ora, todos sabem que a oração faz parte de um processo de intimidade entre o homem e Deus e que orar pelos governantes não é mais do que uma obrigação de todo cristão sério. 

Na realidade o que me preocupa é a aproximação com o poder, não no sentido de lhe apontar os erros e clamar por justiça, mas no sentido de mostrar-se como uma força política. 

Jesus nos ensinou a ser o sal da terra e luz do mundo. Ora, o sal não aparece mas é fundamental para a conservação do sabor. A luz sim aparece, mas com objetivo de dissipar as sombras. Penso que com atitudes sérias agimos como sal e quando defendemos o que é certo agimos como luz. Queira Deus que a Igreja Evangélica no país siga este caminho e não seja cooptada pelo poder político e pelo poder midiático. 

Cantoras evangélicas e Dilma (Foto: Roberto Stuckert) 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Evangélicos são tema de capa da Revista de História da Biblioteca Nacional


Não há dúvidas de que o movimento evangélico está em evidência no Brasil. Os números do último Censo apontando a quantidade de fiéis em 42 milhões,  o espaço que a música e a cultura gospel vem conquistando na mídia, bem como o debate de temas religiosos ditando a tônica de campanhas eleitorais têm despertado o interesse de pesquisadores de diversas áreas.

Atendendo a esta demanda, a Revista de História da Biblioteca Nacional reservou a matéria de capa de sua edição do mês de dezembro para o dossiê temático Evangélicos: a fé que seduz o Brasil. A RHBN  reúne mensalmente matérias e artigos de mestres e doutores de conceituadas universidades brasileiras elaborados para atender não apenas a universitários e especialistas em história, mas ao grande público em geral. O dossiê foi organizado pela historiadora Nashla Dahás, doutoranda em história pela UFRJ.

A imagem de capa "Mulher dançando no Espírito" (do acervo do "Centro de Estudos do Movimento Pentecostal") foi comentada pela Profª Karina Bellotti, da Universidade Federal do Paraná, conhecida pelos seus estudos na área de mídia evangélica no Brasil. No site da Revista é possível acompanhar uma entrevista com a Profª Karina.

O dossiê conta com uma reportagem de Alice Melo sobre a cultura dos evangélicos no Brasil, acentuando as mudanças ocorridas no movimento nas últimas décadas. A seguir, o artigo de Silvia Patuzzi (PUC-RJ) resgata as origens do movimento evangélico nas teorias de Martinho Lutero na Europa do século XVI. O texto de Angelo Adriano Faria de Assis (UFV) trata do estabelecimento das primeiras igrejas evangélicas no Brasil nas primeiras décadas do século XIX.
Marcos Alvito (UFF) fala sobre a presença pentecostal nas regiões de periferia das grandes metrópoles, enquanto Ricardo Mariano (PUC-RJ), principal responsável pela disseminação do termo neopentecostal no Brasil, aborda a relação entre religião e política observando a atuação dos parlamentares da bancada evangélica.

Os textos de Eduardo Refkalefsky (UFRJ) e Orivaldo Pimentel Lopes Junior (UFRN) fecham o dossiê ao comentarem as estratégias (conscientes ou não) de crescimento dos pentecostais no Brasil.

A Revista é uma excelente indicação para quem deseja se aproximar desta área de estudos cada vez mais complexa e intrigante. Mais informações podem ser obtidas no site da Revista. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Comissão da Verdade vai discutir atuação de igrejas durante regime militar


Com informações da Agência Brasil

Yara Aquino
Repórter da Agência Brasil
Brasília - A Comissão Nacional da Verdade criou um grupo de trabalho para analisar o papel das igrejas Católica e da evangélica durante o regime militar (1964-1985). A primeira reunião será na quinta-feira (8), em São Paulo. O grupo pretende aprofundar as discussões sobre a atuação que as igrejas e os religiosos tiveram tanto na resistência ao regime militar quanto na colaboração com a repressão.
O trabalho do grupo será todo desenvolvido com a assessoria de pesquisadores autônomos e da sociedade civil especializados em ciências da religião, história e sociologia. No primeiro encontro, eles apresentarão os temas de pesquisa e farão o planejamento da agenda de trabalho para os próximos meses. A coordenação dos trabalhos é do professor Paulo Sérgio Pinheiro, membro da comissão.

Na próxima semana, entre os dias 16 e 18, a Comissão Nacional da Verdade terá atividades no interior do Pará para averiguar questões referentes à Guerrilha do Araguaia, ocorrida no período de 1960 a 1970. Um dos temas será a análise sobre a atuação na guerrilha da etnia Suruí, que atualmente vive na Terra Indígena Sororó. Há controvérsias sobre o assunto apesar de existir informações sobre a exploração de indígenas desse grupo pelos militares.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

31 de outubro: 495 anos de Reforma Protestante

Há exatos 495 anos, o monge alemão Martinho Lutero fixou na porta da Igreja de Witemberg na Alemanha um convite para o debate de 95 teses que escrevera a respeito de algumas posições então adotadas pela Igreja Católica referentes principalmente ao pagamento de indulgências por parte dos fiéis. Lutero também aproveitou para discutir alguns abusos e excessos cometidos pelo clero. As teses de Lutero causaram uma grande reviravolta em sua cidade e em seu principado, desencadeando os eventos que posteriormente seriam conhecidos como Reforma Protestante, que criaria a possibilidade para o surgimento de novas denominações cristãs independentes do catolicismo, sendo a primeira delas a Igreja Luterana. Com a Reforma abriram-se as portas para o surgimento das igrejas evangélicas.
O êxito do movimento de Lutero (que aliás, não pretendia causar nenhuma cisão na igreja, mas discutir seu ponto de vista com base nas Escrituras), deveu-se em grande parte à sua proposta de que os ensinos sagrados estivessem a disposição do povo. Tanto é que a Imprensa de tipos móveis, que permitia a reprodução de materiais escritos e que fora inventada algumas décadas antes, foi uma fortíssima aliada de Lutero em seu intento de colocar a Bíblia na mão do povo.
Já ouvi muitas pessoas dizendo que precisamos de uma nova Reforma na igreja evangélica brasileira. No entanto, nossos tempos são outros: em países como o nosso, onde há liberdade religiosa, a Bíblia está a disposição do povo
 Diferente do que acontecia na época, a Bíblia não é mais um monopólio da hierarquia da Igreja. Há Bíblias de todos os tipos e gostos: bíblias de estudo, com comentários, sem comentários, com as palavras de Jesus em vermelho, com tabelas, com capa-dura, com capa de couro, bíblias on-line, em aplicativos para celulares e tablets, etc....
Definitivamente o acesso ao conteúdo bíblico não é um problema no Brasil (digo isto levando em consideração que muitas pessoas não têm acesso à Bíblia por conta de sua condição financeira, já que a Bíblia é hoje um produto comercializado. No entanto, isto faz parte de um outro dilema.) Penso que nossa dificuldade não é com relação ao acesso, mas sim à nossa postura diante da Bíblia: a forma como nos apropriamos do texto, a forma como o lemos e nos relacionamos com ele. Infelizmente, uma leitura superficial e permeada por superstições de todo o tipo têm produzido uma série interpretações bíblicas que contribuem para o nosso afastamento do verdadeiro Evangelho.
Assim, penso que neste 495º aniversário da Reforma devamos lembrar que nos últimos cinco séculos esforços imensos foram feitos para que a Bíblia chegasse ao povo, como alardeava Lutero. Aproveitando-se disso devemos nos comprometer a um retorno à leitura pessoal, meditativa e coerente da Bíblia, uma leitura que nos leve a sermos críticos à forma injusta de pensar do mundo e que nos leve a buscar o caráter de Cristo em nós!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Prof. Paulo Barrera faz seu comentário sobre o livro "Evangélicos e periferia urbana em São Paulo e Rio de Janeiro"


Dia 19 de Setembro aconteceu no auditório do edifício Capa na Universidade Metodista de São Paulo o lançamento do Livro "Evangélicos e Periferia Urbana em São Paulo e Rio de Janeiro". Fruto de pesquisas do GP Religião e Periferia Urbana na América Latina, o livro apresenta apresenta em seus dez capítulos pesquisas de campo e discussões teóricas sobre o crescimento das igrejas pentecostais em diferentes contextos de periferia (São Bernardo do Campo, Rio de Janeiro, Rio Grande da Serra e Perus. Participaram do debate de lançamento os professores Marcelo Camurça (UFJF), Luci Praun (Metodista) e Silas Guerriero (PUCSP). No site da editora (aqui) é possível visualizar o sumário e a Introdução da obra.
No vídeo acima, gravado no dia do lançamento pela equipe da Universidade Metodista, o Prof. Paulo Barrera, organizador da obra e coordenador do Repal falou sobre a proposta geral do livro, problematizando a simplificação de associar crescimento religioso à pobreza.
O livro pode ser adquirido no site da Editora CRV.
O professor Paulo Barrera possui graduação em Ciencias de la Religión pela Universidad Nacional de Heredia (1987), Mestrado em Estudos Latino-americanos na Faculdade de Filosofia y Letras da Universidad Nacional de Heredia (1990) e Doutorado em Ciências Sociais e Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1999). 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Evangélicos na política



O texto abaixo foi publicado originalmente no nº 731 da Revista Eletrônica Observatório da Imprensa (http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed713_evangelicos_na_politica). Foi escrito pela Profª Magali do Nascimento Cunha da Universidade Metodista de São Paulo 

O texto a seguir foi elaborado a partir de uma proposta de entrevista feita pelo professor José Faro, meu colega no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, sobre o caso “religião na campanha de Russomanno à Prefeitura de São Paulo”. Ele desejava publicar a entrevista como complemento a outra que dei ao Instituto Humanitas, IHU, da Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos), no seu blog “História, Cultura e Comunicação”. Meu entusiasmo com a reflexão me fez produzir um artigo, que Faro publicou na íntegra. Partilho aqui o conteúdo do artigo, que pode ser reproduzido, mas sob a condição de se registrar que é fruto do meu diálogo com o professor José Faro e que foi originalmente publicado no blog “História, Cultura e Comunicação“.
A campanha para as eleições municipais 2012 na cidade de São Paulo foi apimentada pela destacada ascensão do candidato a prefeito Celso Russomanno (PRB) à liderança isolada na disputa no mês de setembro. Russomanno, que demonstrava bons índices antes do início da campanha pelo horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, apareceu como líder isolado na pesquisa Datafolha divulgada no final de agosto com 31% das intenções de voto, contra 22% de José Serra (PSDB) e 14% de Fernando Haddad (PT).
A consolidação destes números durante a primeira quinzena de setembro transformou a polarização frequente em eleições em São Paulo – PT vs. PSDB (ou seus respectivos aliados) – para Russomanno vs. Serra/Haddad, que passaram a atacar o seu novo principal opositor. E foi neste processo de ataques que emergiu a questão da religião na política como algo a se combater. Russomanno passou a ser apresentado como “o” candidato da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), com compromissos com esse grupo. Isso porque o PRB (Partido Republicano Brasileiro), partido ao qual Russomanno se filiou em 2011 para disputar a Prefeitura de São Paulo depois de deixar o Partido Progressista (o PP, de Paulo Maluf), é conhecido como o “Partido da IURD”. Tendo sido fundado em 2003, por partidários do ex-vice-presidente do Brasil José de Alencar, o PRB já tinha parceria firmada com a IURD: todos os deputados ligados a essa igreja migraram para o partido desde o credenciamento e levou à eleição, em 2008, do bispo Marcelo Crivella (PRB/RJ) como o seu primeiro senador. O PRB ficou conhecido como o braço político da IURD.
Guerra religiosa?
Sob esta “acusação”, dada a má imagem da IURD construída socialmente, em especial pelas mídias, por conta dos escândalos que tratam do enriquecimento ilícito do líder maior da igreja, o bispo Edir Macedo, o PRB sempre tentou descolar sua imagem da religião, mas o fato é que a cada eleição os seus quadros são ampliados com novos pastores e bispos ligados à IURD. O próprio presidente do partido, Marcos Pereira, é bispo licenciado, se apresenta como leigo, advogado, mas é membro da IURD e foi vice-presidente da Rede Record, pertencente à igreja.
José Serra e Fernando Haddad viram nesta trajetória do PRB e nas controvérsias da IURD uma possibilidade de neutralizar o concorrente ameaçador. Até aqui, uma estratégia que em nada surpreende. Nas eleições nacionais de 2010, religião foi tema recorrente para ataques e defesas, em especial em relação a Dilma Rousseff, mas também a Marina Silva. A surpresa nos desdobramentos dos debates em torno da ascensão de Russomanno foi a entrada da Igreja Católica (Arquidiocese de São Paulo) no bombardeio ao candidato. A Arquidiocese publicou uma nota, em 13 de setembro, repudiando um artigo do presidente do PRB Marcos Pereira. O texto, publicado no blog do político há mais de um ano, maio de 2011, criticava o então ministro da Educação Fernando Haddad e seu antigo e derrotado projeto do “kit anti-homofobia” (que ficou conhecido como “kit gay”) e também recriminava a Igreja Católica por ter apoiado tal projeto e por influenciar o ensino público. O artigo voltou a circular pela internet neste tempo de campanha eleitoral. Daí a na nota de setembro de 2012, em que a Igreja Católica, que declarou só agora conhecer o texto, acusa Pereira de promover intolerância religiosa e acrescenta a acusação de ser o PRB “manifestadamente” ligado à IURD.
Marcos Pereira se defendeu alegando que a produção do artigo em seu blog tem relação com a “liberdade de expressão e livre pensamento, sem qualquer conotação política ou eleitoral” e criticou o fato de o texto ter sido usado um ano e quatro meses depois “de maneira indevida, às vésperas da eleição para a Prefeitura de São Paulo”.
Religião na pauta
As críticas a Celso Russomanno, como candidato da IURD e por trabalhar por ela, se intensificaram. Indo além do debate entre políticos, o candidato reclamou publicamente, de acordo com matéria do portal Terra (19/09/2012), estar sendo atacado pela Igreja Católica e que o arcebispo de São Paulo, D. Odilo Scherer, teria orientado padres a recomendarem aos fiéis nas paróquias a não votarem no candidato.
Fato muito interessante em todo este processo é que nova pesquisa Datafolha divulgada em 20 de setembro mostra que os ataques a Russomanno não fizeram efeito: ele segue estável com 35% de intenções de voto, com Serra com 21% e Haddad com 15%.
Todo este acirramento em torno da questão religiosa tem chamado a atenção de pesquisadores da política e da religião e revela como o fenômeno religioso hoje no Brasil, assim como as transformações experimentadas nesse campo, se coloca cada vez mais na pauta da dinâmica sociocultural.
Cenário complexo
Importa observar três elementos:
1 – O lugar da IURD nesse processo e seu poder no quadro de hegemonia do pentecostalismo entre os evangélicos na atualidade como império midiático e na força política, com o quadro de deputados e senadores que elege e se amplia a cada eleição. Força política é elemento significativo aqui, pois a IURD aparece como a igreja que se estabeleceu com um nítido projeto de presença na política nacional como parte do seu jeito de ser igreja e sua consolidação como força social. Não que religião na política seja fato novo, mas a novidade reside no fato de uma igreja estabelecer um projeto, metas, e até mesmo trabalhar na criação de um partido que lhe servisse de braço político. Os últimos números do censo 2010 sobre religião mostram uma queda no número de adeptos da IURD, o que tem gerado uma série de novas avaliações, mas a posição dessa igreja como poder midiático e poder político no país se mostra imutável.
2 – O fato de a Igreja Católica romana entrar nos embates da campanha à Prefeitura de São Paulo é indício de que este poder da IURD está tão forte como sempre se manifestou. E mais: a Igreja Católica traz para o embate uma aliada poderosa que também se vê ameaçada pela aliança PRB-Universal-Record: a Rede Globo. Desde que a Igreja Católica entrou na disputa, o programa SPTV, por meio do jornalista Cesar Tralli, tem pautado o tema do “uso da religião na campanha”. Já foram várias inserções no telejornal sobre tema, com entrevistas aos candidatos, inclusive Russomanno, que se declara católico e se defende, em resposta ao jornalista: “Não existe guerra religiosa nem vai haver.” Esta defesa responde ao tom dos ataques.
3 – É fato que a relação Russomanno-PRB-IURD existe e tem história: Russomanno é jornalista e advogado e tem presença na mídia desde 1986, tendo passado por várias emissoras, com identidade nas abordagens sobre direitos do consumidor. Em 2011, Russomanno foi contratado pela Rede Record, tendo quadro sobre defesa do consumidor em programa jornalístico e em outros de variedades. Deixou a emissora em 2012 para se candidatar à Prefeitura de São Paulo. Suas posições como deputado federal, em especial aquelas contrárias à ampliação de direitos de homossexuais e de direito ao aborto, o aproximaram dos grupos religiosos conservadores, entre eles os parlamentares da Frente Evangélica. Aqui encontramos explicação para a aproximação de outros grupos de evangélicos a Russomanno: já declararam oficial apoio à candidatura as lideranças da igreja Renascer em Cristo e a Assembleia de Deus – Ministério Santo Amaro. Em entrevista à Folha de S.Paulo em junho de 2012, o ministro da Pesca, ex-senador pelo PRB-RJ Marcelo Crivella, afirmou que Russomanno é o candidato mais próximo do eleitor evangélico por conta de sua atuação no Congresso Nacional “em defesa da família e da vida”.
Espaço maior
Ocorre que esta afirmação de Crivella não é regra: um dos ramos mais fortes da Assembleia de Deus, o Ministério de Belém, liderado pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa, declarou apoio a José Serra, da mesma forma que a Igreja Mundial do Poder de Deus, hoje em conflito com a IURD. Já o Ministério do Brás (ligado ao Ministério Madureira, das Assembleias de Deus, a segunda das mais fortes vertentes, liderado pelo deputado e pastor Manoel Moreira), apoia Gabriel Chalita (PMDB). Ou seja, as igrejas midiáticas, como a IURD e a Renascer em Cristo, e as de força numérica, como as Assembleias de Deus, fazem opções distintas tentando medir força e ganhar status social e espaço no campo religioso com seus apoios, mas apresentam um elemento em comum: apoiam candidatos cujas posturas e discursos se colocam na posição de centro-direita, próxima das posturas ideológicas dessas lideranças evangélicas que vêm de uma tradição de leitura sociocultural conservadora, em especial nas questões voltadas à moralidade.
Da mesma forma, para além das questões da moralidade sexual/familiar, os grupos evangélicos não revelam ter posicionamentos contundentes quanto às questões nacionais (economia/finanças, trabalho, cultura, meio-ambiente, a própria política). Suas preocupações são estreitas e pragmáticas: visam, por meio de suas ações na política (apoios ou campanhas para seus próprios candidatos), a obter benefícios para a própria subsistência como igrejas. Por isso, apoiam candidatos que prometem assegurar direitos das igrejas e assistência a causas bem específicas. O pastor presidente das Assembleias de Deus – Ministério Santo, Amaro Marcos Galdino, por exemplo, justifica o apoio a Russomanno, pois ele diz que vai regularizar a situação de igrejas que, como o Ministério em Santo Amaro, são alvo de processos administrativos da Prefeitura, conforme depoimento ao Estado de S. Paulo em 7 de setembro. Candidatos conhecem bem esta característica do jeito evangélico de fazer política e negociam a partir daí.
Nesse sentido, é possível concluir que evangélicos que dão visibilidade aos seus apoios políticos se lançam num embate que revela suas próprias disputas por poder nesse campo religioso tão diverso. Basta ver o caso das Assembleias de Deus e suas divisões: cada ministério apoia um candidato. Ou o caso da IURD vs. Igreja Mundial do Poder de Deus: apoiam candidatos distintos. Quem vencer, alcança apoio para seus próprios interesses e maior espaço no campo religioso em disputa e ainda ganha pontos no reconhecimento pelas defesas da moral social e da família.
E os fieis?
E os fieis? São fieis também no atendimento ao apelo dos líderes por votos? A fórmula pastor manda = fiel obedece não é tão automaticamente aplicável. Em pesquisas, significativo número de evangélicos responde que “talvez” obedeça ao pastor. Isso porque há fatores mais fortes, relacionados à dinâmica social, que determinam a decisão do voto: fatores econômicos e fatores culturais, muito especialmente. O grande exemplo foi a eleição de Dilma Rousseff em 2010, cuja campanha foi bombardeada por lideranças evangélicas conservadoras, antidireitos homossexuais e antiampliação do direito ao aborto. Dilma foi eleita com expressivo voto de evangélicos. Nesse caso, o reconhecimento das políticas sociais de Lula que teriam continuidade falou mais forte.
Uma pesquisa Datafolha de 14 de setembro, no calor das acusações contra Russomanno por estar “usando” a religião na sua campanha, revela que o engajamento de líderes evangélicos na campanha dele e na de José Serra não tem surtido benefícios numéricos. Diz a matéria de Ricardo Mendonça:
“Desde março, quem cresce de forma constante junto aos evangélicos é Fernando Haddad (PT), o único dos três primeiros que não ostenta apoio explícito de pastores. Em março, Haddad tinha 4% das intenções de voto entre os pentecostais. Saltou para 13% em agosto e, na última pesquisa, obteve 15%. Entre os não-pentecostais, foi ainda melhor. Atingiu 22%. Filiado à sigla comandada por membros da Igreja Universal, Russomanno caiu 17 pontos entre os não-pentecostais na última rodada, sua maior queda em todos os segmentos. Entre os pentecostais, oscilou três para baixo. Já Serra, que tem feito visitas frequentes a cultos, caiu 12 pontos entre os pentecostais desde março. E apesar de ter subido de 14% para 24% entre os não-pentecostais na última rodada, ainda está dez pontos abaixo do que já teve. Serra é apoiado pelo maior ramo da Assembleia de Deus, por igrejas menores, e foi abençoado por Valdomiro Santiago, da Igreja Mundial. Ainda assim, tem 50% de rejeição entre pentecostais e 47% entre não-pentecostais” (FSP, 14/09/2012, online).
Portanto, tratar o tema evangélicos na política, ou o caso Russomanno, é tratar tema complexo que não passa tão só pela questão religiosa, pelo poder que líderes religiosos se atribuem ou pela obediência de fieis a esses líderes. É dinâmica complexa que inclui disputas por poder e hegemonia no campo religioso, ambição dos políticos que veem no pragmatismo dos evangélicos fonte para suas barganhas de campanha, concorrência de grupos que competem por poder sociopolítico e econômico como as empresas de mídia. No meio disto tudo está a fé, a crença, a religião, sonhos e esperanças de muita gente que ainda acredita haver um Deus no meio disto tudo. Se houvesse, e Ele declarasse o seu voto, provavelmente seria nulo.
***
[Magali do Nascimento Cunha é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação, professora da Universidade Metodista de São Paulo e autora do livro A Explosão Gospel. Um Olhar das Ciências Humanas sobre o cenário evangélico contemporâneo (Ed. Mauad)]

www.observatoriodaimprensa.com.br

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Os pentecostais no Censo 2010: Assembléia de Deus chega aos 12 milhões. Igreja Universal e Congregação Cristã diminuem


Na manhã deste dia 29 de junho, o IBGE divulgou os resultados do Censo 2010 sobre religião. Como já comentamos na postagem anterior, os evangélicos chegaram à cifra de 42,3 milhões (22,2% da população). O ano da realização do Censo coincidiu com o centenário da chegada do pentecostalismo ao Brasil. De acordo com os dados do IBGE, 6 de cada 10 evangélicos brasileiros declara-se pentecostal.
O ranking das cinco maiores igrejas pentecostais do país permaneceu inalterado, porém, apresentou interessantes diferenças em relação ao Censo 2000.
A Igreja Assembléia de Deus apresentou um crescimento de 46%, saltando dos 8,4 milhões de membros para 12,3 milhões, continuando a ser a maior igreja evangélica e o segundo maior grupo religioso do país, perdendo em números apenas para a Igreja Católica. Vale a pena lembrar que o Censo não faz distinção entre os diferentes ministérios da AD. Assim, os 12 milhões de assembleianos estão espalhados em uma série de ministérios e convenções independentes, das quais a maior e mais antiga é a CGADB (Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil), fundada em 1930. Há diversos ministérios dentre os quais destacam-se: Belém, Madureira, Perus, Ipiranga, Santos, Bom Retiro, dentre centenas de outros.
Algo curioso diz respeito à diminuição do número de membros das Igrejas Congregação Cristã do Brasil e Universal do Reino de Deus. A Congregação, amplamente conhecida pelos seus templos de cor cinza e janelas com arcos góticos, perdeu quase 200 mil fiéis, passando de 2,4 para 2,2 milhões de membros. No entanto, continua sendo a segunda maior igreja pentecostal do país. Diferentemente da Assembléia, a Congregação Cristã não está dividida em ministérios, representando, portanto, uma única instituição.
Impressiona também a diminuição do número de membros da Igreja Universal do Reino de Deus, amplamente conhecida pelo intenso uso dos meios de comunicação para divulgação de sua mensagem. A IURD passou de 2,1 milhões para 1,8 milhões, o que indica que o trânsito religioso entre diferentes igrejas tem afetado a denominação. Vale a pena comentar aqui o surgimento da Igreja Mundial do Poder de Deus, que tem se transformado em uma das principais opções para quem deixa a IURD. No Censo, a Igreja Mundial não foi classificada individualmente, estando agrupada no grupo "Outras igrejas evangélicas de origem pentecostal", do qual falaremos mais a frente.
A Igreja do Evangelho Quadrangular e a Igreja Deus é Amor (que em junho deste ano completou seu jubileu de ouro), aumentaram o seu número de membros. Enquanto a IEQ saltou de 1,3 milhão para 1,8 milhão, a IPDA ganhou 70 mil membros, passando dos seus 774 mil para os 845 mil adeptos.
A Igreja O Brasil para Cristo passou de 175 mil para 192 mil, a Maranata de 277 mil para 356 mil, a Casa da Benção de 128 mil para 125 mil e a Vida Nova (de onde se originou a Universal) de 92 mil para 90 mil.
Também merece destaque o crescimento do grupo "Outras igrejas evangélicas de origem pentecostal", que passou de 1,8 para 5,2 milhões (!). Deste grupo fazem parte igrejas mais conhecidas como Renascer em Cristo, Igreja da Graça, Mundial do Poder de Deus e Avivamento Bíblico, além das variadas igrejas pentecostais autônomas, presentes em uma variada gama de diferentes congregações, espalhadas principalmente pelas regiões de periferia das grandes metrópoles. (em minha pesquisa de mestrado, realizada no bairro paulistano de Perus em 2010, encontrei cerca de 60 diferentes denominações pentecostais em um bairro com 70 mil habitantes). O crescimento de 3,4 milhões de pessoas neste grupo, bem como o aumento de 180 mil para 777 mil dos que se denominam como membros de "Comunidades Evangélicas" indica interessantes mudanças comportamentais, institucionais e doutrinárias no campo religioso pentecostal brasileiro.
Este é apenas um olhar preliminar sobre o Censo. Sem dúvida, há muito o que se pesquisar entre todos estes números!

Acabam de ser divulgados os resultados do Censo 2010 sobre Religião


O IBGE acaba de divulgar os resultados do Censo 2010 referentes à religião. Também foram divulgados dados sobre cor ou raça, características gerais da população e pessoas com deficiência. 

Uma primeira observação geral sobre os resultados referentes à religião aponta para uma tendência que já vem sendo observada nas últimas décadas: a diminuição do número de católicos e o aumento dos evangélicos (em especial dos pentecostais)  dos sem religião.  
Os católicos passaram de 73,6% da população em 2000 para 64,6% em 2010 (cerca de 123 milhões de adeptos em um universo de 190 milhões de habitantes. No ano 2000 eram 125 milhões em um universo de 169 milhões de habitantes), já os evangélicos passaram de 15,4% para 22,2% (um aumento de 16 milhões em dez anos, já que em 2000 eram 26,2 milhões e chegaram 42,3em 2010). 
Os sem religião, passaram de 7,3% para 8,0%, um aumento de 2,8 milhões. Vale a pena lembrar que o grupo "sem religião" não é formado necessariamente por ateus, mas por pessoas que não estão ligadas a nenhuma instituição religiosa, embora possam exercer suas crenças pessoais. Os ateus propriamente ditos somam  cerca de 615 mil pessoas, enquanto os agnósticos 124 mil. Os espíritas passaram de 1,3% (2,3 milhões) da população para 2,0% (3,8 milhões). Enquanto os praticantes da umbanda e camdomblé mantiveram-se em 0,3% (cerca de 570 mil pessoas em 2010). 
Na próxima postagem comentarei as mudanças nos números das igrejas pentecostais.