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sábado, 21 de setembro de 2013

A reciprocidade do amor cristão (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 4.10-13

Neste trecho da carta aos filipenses está o versículo que é sem dúvida o mais conhecido de toda a epístola: "Tudo posso naquele que me fortalece". Na lição desta semana será possível estudar mais a fundo o contexto no qual está inserida esta expressão, repetida constantemente em púlpitos de todo o país.

No último domingo em nossa Escola Dominical, um de nossos professores, Pr. Nelson Rodrigues, fez uma observação bastante significativa a respeito do estudo das cartas de Paulo. Ele disse que ao estudarmos a lição da EBD é necessário entender que o texto bíblico poderá ter quatro interpretações diferentes: a que Paulo tinha em mente quando escrevia, a do comentarista da revista de EBD, a do professor que prepara a aula, e a do aluno que participará da aula. Ou seja, para compreendermos o texto é preciso antes de tudo tentarmos nos colocar no lugar de Paulo e imaginar seu objetivo em escrever a carta, depois tentarmos imaginar a reação dos filipenses ao recebê-la e então pensarmos na forma como temos lido este texto na atualidade.

Pois bem, como já tivemos a oportunidade de estudar, a carta aos filipenses é na realidade um "recibo" que  Paulo está entregando aos filipenses, já que é a resposta do apóstolo ao presente recebido dos irmãos de Filipo por intermédio do irmão Epafrodito (que inclusive quase morreu enfermo durante a viagem). S.E. McNair chama a carta de "o mais belo recibo de toda a literatura". Nela, Paulo agradece aos irmãos pela preocupação que tiveram para com ele e demonstra sua sincera alegria por este ato.

Na realidade, a alegria de Paulo não está no valor monetário em si da oferta recebida, mas no fato de perceber que os filipenses haviam se lembrado e realmente se preocupado com ele, demonstrando assim um dos frutos da atuação da graça divina na comunidade.

Quanto à sua condição, Paulo afirma que já tinha aprendido a adaptar-se a qualquer circunstância, sabendo como agir tanto quando tinha em abundância, quanto nos períodos de escassez. Um detalhe importante nesta declaração é que o sentimento de contentamento pode ser aprendido, ou seja, não é inerente à nossa natureza, mas pode ser desenvolvido a partir das nossas experiências diárias. Neste momento da argumentação de Paulo surge o famoso versículo: "tudo posso naquele que me fortalece"

Muito mais que uma frase triunfalista muitas vezes usada para tentar justificar biblicamente nossos projetos pessoais, a frase "tudo posso naquele me fortalece" aponta para a total dependência divina em qualquer tipo de circunstância da vida.

Enfim, o texto de hoje mostra a relação entre um líder religioso, uma comunidade de fiéis e o dinheiro. No entanto, nesta relação o dinheiro não ocupa a posição principal, pelo contrário, torna-se uma das expressões da confiança e da cuidado mútuo entre o líder e suas ovelhas. Tal relação só é possível de ser alcançada por intermédio da aprendizagem contínua.

Sei que em uma sociedade consumista como a nossa uma das coisas mais difíceis para se aprender é a criação de vínculos como este, onde não há interesses egoístas envolvidos, mas apenas a preocupação com o outro. Mas, penso que se aprendemos a ser consumistas, também podemos aprender a ser altruístas. Sim, podemos! Tudo podemos naquele que nos fortalece!

Abraço a todos e todas

Referências: 
McNAIR, S.E. A Bíblia Explicada. 4ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1997


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A alegria do salvo em Cristo (série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 4.1-7


"Alegrai-vos sempre no Senhor. Outra vez digo: alegrai-vos" (Fl 4.4)

Para mim é impossível falar deste texto bíblico sem me lembrar do comentário que tantas vezes ouvi do Pr. Israel Januário da Fonseca, da Assembleia de Deus de Perus, que ao falar da alegria cristã costuma dizer de forma bem humorada, como lhe é característico:

"Sabemos que quando Paulo escreveu este versículo ele estava preso. Assim, imagino que quando ele estava escrevendo a expressão 'alegrai-vos sempre no Senhor', um soldado romano que o vigiava tenha lhe dito: 'Paulo, olhe sua situação! Você está preso e corre o risco de ser condenado à morte e ainda diz para que eles se alegrem?' Paulo então olha para o soldado e sem falar nenhuma palavra escreve: 'outra vez digo, alegrai-vos!' 

Não é nosso interesse aqui discutir se foi exatamente desta forma que Paulo escreveu Fl 4.4, mas destacar que esta forma de entender o versículo mostra que a alegria cristã é a melhor forma de reagir às adversidades da vida. Assim, cabe a nós destacar o que é esta alegria, que aliás é um tema presente em todos os capítulos de Filipenses (como já destacamos em outra postagem), que é, sem sombra de dúvida, a carta mais alegre de Paulo.

A alegria cristã não está condicionada a algum momento de satisfação, embora seja possível encontrar tais momentos em meio à adversidade. A primeira palavra que me vem à mente quando penso no conceito de alegria tal qual apresentado por Paulo é "satisfação". Ter a alegria do Senhor significa estar satisfeito com ele. Ou seja, saber que independente do que possamos perder enquanto aqui vivermos, jamais perderemos o mais importante, que é o amor de Deus por nós. Tal convicção nos dará condições de nos alinharmos em meio às desalinhadas circunstâncias da vida. Estar alegre significa não sentir falta daquilo que é mais importante. Significa estar certo de que o amor de Deus é suficientemente grande para suprir nosso coração daquilo que nos falta.

No contexto da carta de filipenses, antes de falar sobre alegria, Paulo procura resolver um problema prático envolvendo duas personagens de destaque na igreja, as irmãs Evódia e Síntique. Ambas estavam em desavença por algum motivo desconhecido. Para procurar resolver o problema o apóstolo não se posiciona a favor ou contra nenhuma delas, mas reconhece o valor que ambas tinham no contexto de proclamação do Evangelho na cidade. Como destaca Werner de Boor, diferente do que  se possa se imaginar, a menção a estas irmãs indica a importância que as mulheres tinham na Igreja Primitiva: "Evódia e Síntique não estavam – como uma interpretação unilateral de 1Co 14.34s e 1Tm 2.11s tenta impor a todas as mulheres no cristianismo – condenadas às panelas, mas tinham serviços importantes a realizar na igreja. Chegaram a estar lado a lado com Paulo 'no evangelho'! Como gostaríamos de saber mais detalhes!"

Nos versículos seguintes Paulo relaciona a alegria cristã a outro tema de central importância na vida cristã: a oração. Mas, falaremos mais sobre estes versículos em nossa próxima postagem.

Abraço a todos e todas!


sábado, 31 de agosto de 2013

Os inimigos da cruz de Cristo (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 3.17-21

Para o trecho a ser estudado esta semana Paulo está retomando um assunto que já havia apresentado no início do capítulo 3: a suposta superioridade que os judaizantes sentiam ter sobre os demais. Confiando em sua "vida religiosa autêntica" e na preservação dos rituais da lei de Moisés, estes eram perigosas influências para a igreja de Filipos.

Por outro lado, havia também o perigo daqueles que viviam apenas para satisfazer os próprios deleites e usavam argumentos religiosos para se defender: "não há nada de bom na carne, mas enquanto estou preso nela devo satisfazê-la".

Para combater os dois grupos Paulo desenvolve duas ideias. 

A primeira delas é que o Evangelho se baseia principalmente na prática cristã. Ou seja, todo o nosso discurso deve ser confirmado por atitudes que sejam adequadas ao conteúdo do Evangelho. Por isso o apóstolo diz: "Sede  meus imitadores". Ou seja, mesmo plenamente consciente de suas próprias limitações, Paulo estava seguro de estar dando um bom exemplo de como seguir a Cristo. 

Na semana passada discutimos este versículo na reunião de professores de EBD em nossa Igreja, tentando argumentar que Paulo não estava sendo arrogante ao se colocar como exemplo para igreja de Filipos. Foi quando um de nossos professores (Pb. Eric Nascimento) disse o seguinte: "sou pai e sei que não sou perfeito, mas posso chegar para o meu filho e dizer: filho, se você quiser ser um homem de caráter siga o exemplo do seu pai. Faça as mesmas coisas que eu faço e você se dará bem na vida". Paulo tinha convicção de que estava no caminho certo e não se envergonhava de admitir isto, portanto, ele não era movido pela arrogância, mas pelo cuidado para com seus filhos na fé.

Em segundo lugar Paulo diz que toda vez que empenhamos as nossas forças para alcançar algo efêmero, estamos caminhando na contramão da mensagem da cruz. Se nossa glória é a satisfação de nosso próprio ego e nos julgamos o centro das atenções (como acontecia com os judaizantes), automaticamente nos tornamos inimigos da cruz, já que sua mensagem é a de que devemos renunciar a nós mesmos. A cruz nos convida à renuncia! A Cruz nos nos apresenta um caminho de glória que começa no auto-esvaziamento! A cruz nos convida a diminuir!

Que Deus nos guarde de colocar nossas pretensões à frente da cruz a acharmos que dela não mais precisamos. 

Abraço a todos e todas. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A suprema aspiração do crente (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 3.12-16

Se pedíssemos a um artista atual que desenhasse em uma figura simbólica o que representa “o cristão” – que imagem o artista escolheria? Que impressão tem ele da “essência” dos cristãos de hoje? Talvez ele desenharia o “ouvinte” ou uma mulher que sentada de mãos postas diante de uma Bíblia aberta.
Dificilmente ele lembraria uma imagem que para Paulo na verdade era a imagem apropriada de um “cristão”: a imagem de um desportista no estádio! O próprio Paulo se via nessa imagem. Qualquer interpretação e aproveitamento do presente trecho, portanto, precisa acontecer de tal maneira que essa imagem do cristão fique explícita. (Werner de Boor)

No trecho que estudaremos esta semana o apóstolo Paulo está falando sobre motivação cristã. Na realidade ele está dando continuidade à ideia que começou a desenvolver nos versículos anteriores, quando falava da motivação dos maus obreiros, que eram impelidos pelo desejo de reconhecimento pessoal e inspirados por uma religiosidade vã.

Depois de falar sobre as motivações inúteis dos judaizantes, Paulo fala da verdadeira motivação, daquilo que o inspirava a prosseguir, e que deve ser o alvo último da vida de cada cristão.

Duas expressões podem sintetizar a ideia deste texto. A primeira delas é "conhecer a Cristo, como dele sou conhecido". Por mais que a salvação já esteja garantida para aqueles que aceitaram a oferta gratuita de Cristo na cruz, há uma dimensão da vida cristã que consiste em aproximar-se de Deus e tornar-se cada dia mais íntimo de sua presença. Significa caminhar com ele, fazê-lo participante  de cada um dos departamentos da nossa vida. Como reiterado por Myer Pearlman no comentário de nossa lição, conhecer a Cristo não significa apenas saber quem ele é, mas ter uma relação de proximidade com ele, significa ter histórico de convivência com o Criador.

Há pessoas que estão juntas todos os dias e não se conhecem de fato. Há pessoas casadas que não sabem muito a respeito de seu cônjuge! Há também cristãos que não sabem muita coisa a respeito de seu Deus, embora possam ter um conhecimento teórico muito grande da teologia cristã.

Paulo sabia que nunca iria conhecer a Cristo tão bem quanto Cristo o conhecia (lembre-se que a primeira vez que Paulo teve contato com Cristo, no caminho de Damasco, Jesus já tinha a "ficha completa" dele e revelou conhecer detalhes que nem o próprio Paulo conhecia). Para este propósito, utilizava a mesma força que anteriormente usara para perseguir aos cristãos. Ele empenhava todas as suas forças não para se tornar um religioso exemplar, mas para conhecer a Cristo: eis o maior triunfo da vida cristã!

Para tanto, a exemplo do corredor em um estádio, o apóstolo não olhava para trás, mas seguia para o alvo. Assim, compreendemos que é possível perder-se no meio da caminhada cristã quando focamos algo que não é Cristo. Eis a preocupação de Paulo com relação aos filipenses: de que eles fossem "engolidos" por preocupações que os afastassem de Cristo (no capítulo 4 o tema aparecerá de novo, quando a carta tratará do tema ansiedade).

A segunda expressão central no texto é "o prêmio da soberana vocação". Se conhecer a Cristo é o supremo alvo do cristão e o maior privilégio que se pode ter em vida, o que se dirá de ser semelhante a Cristo?! O prêmio da soberana vocação é ser participante da mesma natureza que o próprio Cristo. É ter um corpo glorificado, como ele tem:

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.
Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro.
(1 Jo 3.2-3)

Que alimentemos esta esperança! 

Veja também: 

Referências: 
BOOR, Werner de. Carta aos efésios, filipenses e colossenses: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Espernça, 2006.
PEARLMAN, Myer. Epistolas paulinas. Rio de Janeiro: CPAD, 1998. 


sábado, 17 de agosto de 2013

A atualidade dos conselhos paulinos (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 3.1-11

Chegamos ao terceiro capitulo de filipenses! Neste ponto aparece que Paulo estava pronto para concluir a carta quando escreve: "Finalmente irmãos, alegrai-vos no Senhor!" 

No entanto, parece que ele se lembra de algo, ou alguma circunstância específica que lhe aconteceu enquanto elaborava a carta lhe faz escrever mais algumas linhas (Epafrodito teria lhe informado de alguma situação específica que o preocupava em Filipos? Paulo teria se lembrando do problema que já estava acontecendo em outras igrejas e decide incluir o assunto na carta antes de concluí-la? Estas são apenas algumas especulações). De fato, o assunto não poderia ficar de fora: trata-se do problema causado pelos maus obreiros.

Em suma, Paulo está fazendo referência àqueles que de uma forma legalista queriam colocar sobre os filipenses um fardo pesado demais para carregar, dizendo que o cristão, para efetivamente agradar a Deus deveria guardar todos os mandamentos da lei.

O problema dos que assim pregavam não era apenas o fato de compreenderem equivocadamente a relação entre a lei e a graça, mas também de se julgarem superiores aos demais pelo fato de serem fiéis guardadores da lei. Por isso, Paulo os chama de "cães", uma referência aos aproveitadores da fé alheia (note que na época o cão não era um animal domesticado como é hoje, ele efetivamente não era o "amigo do homem"). Paulo entendia que para tais pessoas o orgulho de ser judeu e assim ter "autoridade" para doutrinar os demais era seu maior triunfo.

Assim, Paulo fala um pouco de si mesmo (não para se vangloriar, mas para apresentar um pouco de sua experiência pessoal sobre o assunto). O apóstolo mostra que, se fosse seguir a lógica destes maus obreiros,  teria motivo de sobra para vangloriar-se: era um judeu legítimo, e não um prosélito convertido ao judaísmo, tinha condições de dizer de qual tribo pertencia (no caso, da tribo de Benjamim, de onde veio o primeiro rei de Israel, Saul, cujo nome "Saulo" faz referência em forma de homenagem), tinha sido não apenas fariseu, mas um dos melhores de sua época, já que foi discípulo de Gamaliel, uma dos rabinos que marcou sua época. Enfim, quando se tratava de judaísmo, Paulo tinha credenciais que poucos judeus teriam (será que os judaizantes que Paulo critica aqui teriam credenciais semelhantes?). No entanto, em determinado momento da vida Paulo encontrou algo mais importante do que tudo que já tinha conquistado em sua carreira religiosa: Cristo.

Para ter a Cristo Paulo teve que abrir mão de todo o seu  passado como fariseu, todo o prestígio que tinha conquistado como rabino, todos os benefícios acumulados pela sua singular história, simplesmente para ser considerado um dos seguidores de Cristo e para ser identificado como um dos seus filhos. De fato, não foi nada fácil para Paulo desfazer-se de sua condição destacada no judaísmo. Ele teve que anular-se completamente em sua carreira religiosa e ser visto como um inimigo, de perseguidor virara perseguido, de cima do cavalo no caminho para Damasco sair escondido dentro de um cesto na mesma cidade.

Sim, Paulo teve que deixar tudo para seguir a Cristo, e agora, preso em Roma chegou à conclusão de que tudo valeu a pena e de que todas aquelas coisas que tanto valorizou no passado, embora tenham sido úteis para fazê-lo conhecer a Cristo, não lhe faziam mais falta alguma!

Sem dúvida, qualquer um dos judaizantes que poderiam trazer problemas para os filipenses "daria de tudo" para alcançar a posição que Paulo tinha no passado quando era fariseu. No entanto, quando conheceu a Cristo, Paulo percebeu que todas aquelas coisas nada representavam quando comparadas ao privilégio de pertencer a Cristo, tema que será desenvolvido no comentário da próxima semana.

Assim, concordo com o título da lição da CPAD desta semana, de que os conselhos de Paulo são atuais. Sim, são atualíssimos! Ainda hoje existem líderes religiosos que batalham para fazer prevalecer seu poder e para mostrarem-se melhores do que os outros por supostamente terem alguma vantagem diante de Deus, como se algo os diferenciasse diante do olhar do Altíssimo.

No entanto, na presença de Deus todos estamos "desarmados", dependendo única e exclusivamente de sua graça para poder chegar até Cristo e conhecê-lo. Paulo aprendeu isto e se admirava de ver pessoas empenhando suas vidas em algo efêmero, mas que se revestia do manto de religiosidade.

Para encerrar meu comentário, lembro-me da parábola contada por Jesus sobre a pérola de grande valor. Para tê-la o sujeito teve que se desfazer de tudo, e acabou desfrutando do melhor tesouro que poderia ter. Que aprendamos com o Mestre:

"O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas.Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou". (Mt 13.45-46)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A fidelidade dos obreiros do Senhor (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 2.19-30



No  capítulo 1 de filipenses, Paulo afirma que uma das coisas que o afligiam era sua preocupação com as igrejas. O apóstolo estava preso e não podia visitar sequer uma delas, embora recebesse notícias (tanto boas quanto ruins) de diversas delas.

Com relação à Igreja de Filipos, Paulo se preocupava com o fato de não poder acompanhar in loco todo o desenvolvimento daquela comunidade. Assim, pretendia enviar à cidade um de seus cooperadores mais próximos, o jovem obreiro Timóteo. Paulo afirma que a presença de Timóteo entre os filipenses contribuiria para lhe trazer ânimo na prisão, já que , como ele próprio afirma se referindo ao seu filho na fé: 

"Não tenho ninguém como ele, que tenha interesse sincero pelo bem-estar de vocês. Pois todos buscam os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo. Mas vocês sabem que Timóteo foi aprovado, porque serviu comigo no trabalho do evangelho como um filho ao lado de seu pai. Portanto, é ele quem espero enviar" 
(Fl 2.20-23 - NVI)

Neste texto, a partir de um experiência prática, a Bíblia nos aponta o verdadeiro caráter do ministério cristão: o interesse pelo bem-estar do outro, mesmo que para isto tenhamos que abrir mão de nosso próprio bem-estar. Vale a pena lembrar que no momento em que Paulo fala dos que buscam "os seus próprios interesses" está fazendo referência àqueles que o abandonaram ou que se envergonharam dele pelo fato de estar preso. Timóteo, no entanto, não se envergonhava de ter um amigo considerado criminoso pelo sistema judicial romano, pois sabia que este amigo na realidade lutava pelos interesses do Reino de Deus. Assim, Paulo não hesitaria em mandá-lo para Filipos.

O texto também fala de Epafrodito, a quem já nos referimos na primeira lição do trimestre. O fato de Epafrodito ter ficado doente quando foi entregar o presente dos filipenses à Paulo deixou-os extremamente preocupados e Paulo faz questão de consolá-los informando de de que o irmão conseguira se recuperar e em breve estaria novamente em Filipos. É possível que sua doença tenha se manifestado em decorrência de sua viagem à Roma para visitar Paulo. Sobre ele, o apóstolo comenta: "ele quase morreu por amor à causa de Cristo, arriscando a vida para suprir a ajuda que vocês não me podiam dar" (Fl 2.30)

A passagem bíblica ganha maior brilho quando lembramos das condições em que Paulo, Timóteo e Epafrodito exerceram seus ministérios. A igreja da ápoca ainda não tinha uma estrutura hierárquica rígida, e ao que tudo indica os títulos de bispo e diácono que aparecem em algumas passagens do NT ainda não eram elementos de diferenciação social no interior da igreja, embora Pedro em sua primeira carta indique o perigo da existência de pastores que atuavam por ganância (I Pe 5.1-2). De qualquer forma, não era isto que estava em jogo no ministério de Paulo, Epafrodito e Timóteo. Os três não trabalhavam com o interesse de terem um tratamento diferenciado diante da comunidade ou lucrarem por serem obreiros bem sucedidos (lembre que em várias ocasiões Paulo teve que trabalhar fabricando tendas para sustentar suas viagens missionárias!), também não pregavam para obterem reconhecimento social perante a igreja e assim dominá-la. A motivação era o bem-estar dos crentes através de sua aproximação do Evangelho. Epafrodito quase morreu por conta disso!

O trecho nos faz lembrar do que verdadeiramente significa ser obreiro. Deus confiou a missão de ser sal da terra e luz do mundo à Igreja. Ser obreiro significa "dar suporte" à Igreja para que ela consiga cumprir tal objetivo. Paulo dava suporte aos salvos plantando igrejas e escrevendo epístolas, Timóteo pastoreando e Epafrodito fazendo longas viagens. Cada um, dentro de seu chamado específico contribuía para dar suporte aos salvos (falo mais sobre isto no artigo "Diferentes aptidões, diferentes ministérios" - leia-o clicando aqui)

Concluo a postagem desta semana com a frase do Pr. Israel Januário da Fonseca, a quem muito admiro e que dá suporte à Igreja na área do ensino: "Deus deu os pastores para a Igreja e não a Igreja para os pastores!"

Pensemos nisto!

Abraço a todos e todas!

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

As virtudes dos salvos em Cristo (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 2.12-18

Como vimos na postagem anterior, uma das palavras-chaves para a compreensão  do exemplo de humildade de Jesus é obediência. Foi por intermédio de sua obediência irrestrita ao Pai que Cristo se contrapôs à desobediência generalizada provocada pelo pecado no mundo. Cristo foi obediente até a morte, tornando-se o maior exemplo e inspiração para aqueles que lutam contra o pecado.

Na passagem de Fil 2.12-18 Paulo quer destacar o lugar da obediência no processo de salvação e para tanto faz duas declarações que a principio parecem se contradizer: primeiro diz que devemos "operar a nossa salvação" e depois diz que "Deus é quem opera em nós tanto o querer quanto o efetuar". Assim, pode aparecer a dúvida: quem opera a salvação? Deus ou nós mesmos?

Na realidade as duas expressões estão falando de partes diferentes do mesmo processo. Nossa salvação depende única e exclusivamente da obra de Cristo, já que não teríamos nada que pudéssemos oferecer a ele para "bancar" nossa salvação.

Esta afirmação me faz lembrar que em minha infância costumava ouvir o Pr. Samuel Bezerra (então pastor da Assembleia de Deus em Pindamonhangaba) quando vinha pregar nos Congressos de jovens de minha igreja. Todo ano antes de pregar ele cantava um hino de sua autoria, que dizia:

Eu sou sócio de Deus
Eu sou muito feliz
Nesta sociedade
Deus me aceitou
Ele me quis
Eu entrei com a fé
Que ele mesmo me deu
Nesta sociedade
Que felicidade
Quem lucra sou eu

Logicamente, o que estava por trás da letra não era a intenção de promover nos ouvintes o desejo de obter "vitórias financeiras" por parte de Deus, ou transformar nossa relação com ele em um contrato capitalista. Na realidade o hino quer mostrar que nossa salvação depende daquilo que Deus nos apresenta e daquilo que nós apresentamos para ele. No entanto, como não tínhamos nada para apresentar para ele, então, ele nos deu a fé. Ou seja, até mesmo o elemento que precisaríamos para nos tornarmos "seus sócios"  é um presente dele para nós. Nesta sociedade, Deus é quem providenciou tudo, até mesmo os recursos para que pudéssemos chegar até ele!

Ótimo! Concluímos que é Deus quem opera o querer e o efetuar, pois até o desejo que temos de segui-lo dependeu da fé que ele gratuitamente nos deu. Como explicar então a outra parte do texto, "operai a vossa salvação"?

O que o texto quer mostrar é que a salvação não é apenas algo que vai acontecer quando chegarmos ao céu. A salvação começa quando conhecemos a Cristo, e do ponto de vista de Deus, começou antes mesmo da fundação do mundo (I Pd 1.20). Ou seja, não seremos salvos só quando chegarmos ao céu. Já somos salvos agora! E como salvos devemos externar através de nosso convívio diário o que significa ser salvo. Como traduz a NVI: "ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor" (Fl 2.12)

Como colocar a salvação em ação? Paulo explica: fazendo as coisas sem murmurações e contendas. Vale a pena lembrar aqui que os hebreus que saíram do Egito em direção a Canaã, colocaram tudo a perder por conta das murmurações, um forma de colocar em dúvida a maneira como Deus conduz as coisas, um passo apenas antes da incredulidade.

A chave para colocar a salvação em ação está no versículo 16: "retendo a palavra da vida". Note que o que Paulo está falando não é uma mera memorização de textos bíblicos, mas uma atitude de envolvimento completo com os princípios expressos através da vida e obra de Cristo e das Escrituras. É comprometimento total com a palavra da vida.

Só assim será possível alcançar o principal objetivo de Deus para nossas vidas: brilhar como astros no mundo (Fl 2.15). Brilhar aqui não tem nada a ver com fama ou projeção social, mas colocar a salvação em prática de tal forma que nossa ações apontem única e exclusivamente para Deus e sua graça salvadora. Significa brilhar para iluminar ainda mais o Evangelho, e não nos mesmos.

Que lutemos por isto!



quinta-feira, 18 de julho de 2013

Jesus, o modelo ideal de humildade (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 2.5-11

Na época em que eu era aluno do curso de teologia um professor citou uma frase da qual eu nunca mais me esqueci (embora tenha me esquecido do nome de quem a pronunciou originalmente - se algum leitor souber, por favor escreva lá nos comentários, rsrs). A frase é a seguinte: 

"Em Cristo vemos Deus como realmente Deus é e também vemos o homem como o homem realmente deveria ser" 

Esta citação tem uma relação direta com o texto de Fl 2.5-11, em que Paulo utiliza o exemplo da auto-humilhação de Cristo como modelo de conduta para os filipenses.

Nos versículos anteriores (estudados nas duas últimas postagens - aqui e aqui) Paulo fala de suas próprias experiências na prisão e reconhece que seu sofrimento estava servindo de incentivo para que outros pregassem o Evangelho. No entanto, nada se compararia com o exemplo do próprio Cristo! Assim, Paulo escreve uma das mais famosas passagens do Novo Testamento, em que fala do processo espontâneo de humilhação do Filho de Deus.

Antes de falar sobre a passagem, é importante destacar que Paulo a utiliza para criar nos filipenses o senso da humildade. Assim, seu objetivo inicial não era promover uma discussão teológica a respeito da encarnação do filho de Deus (embora o texto naturalmente conduza a isto), mas expor de modo prático a veracidade dos sentimentos e atitudes de Cristo. Assim, volto à citação do início deste texto: Jesus deve ser visto como a expressão exata de Deus, mas também como o modelo ideal de humanidade, já que, estando entre nós em um corpo físico, assumiu todas as prerrogativas humanas, deixando-nos o exemplo de como viver com dignidade em um mundo indigno.

A passagem é fundamental para entendermos (ou pelo menos tentarmos entender) o "mistério da encarnação". Jesus não se "transformou" em homem, já que esta expressão nos levaria a pensar que ele deixou de ser Deus para ser homem. Em nenhum momento Cristo perdeu qualquer dos atributos divinos, embora deles abrisse mão para que pudesse, de fato, assumir a identidade humana em todos os seus aspectos. A passagem diz que Cristo "não teve por usurpação ser igual a Deus" (ARC), "não considerou ser igual a Deus algo a que se devia aferrar" (AR - Imprensa Bíblica), "não considerou que ser igual a Deus era algo a que deveria se apegar" (NVI). Ou seja, ele não "tirou proveito" de sua posição para poder triunfar na terra, embora tivesse sido tentado a fazer isto. O episódio das três tentações de Cristo no deserto apontam para isto. Na ocasião o diabo lhe propôs usar sua condição de Deus para "encurtar o caminho de sua vitória e exaltação", no entanto, Cristo sabia que deveria cruzar este caminho sob a identidade humana e sob a roteiro da humildade. Aceitar a proposta do alheio seria ter usado sua posição de Deus por usurpação, o que comprometeria tanto a sua missão quanto à glória do Pai, bem como a nossa redenção.

Daqui podemos extrair a primeira lição prática: nós nos apegamos ao que temos com muito facilidade, principalmente quando se tratam de títulos honoríficos e posições sociais. Aliás, talvez a maioria de nossas intrigas e discussões seja para que não percamos as coisas que aparentemente nos fazem diferentes dos demais. Jesus, por outro lado, sendo o único que realmente tinha algo diferente de todos os outros homens (não apenas daqueles que viviam em sua época, mas de todos os homens em toda a história da humanidade), não tirou qualquer vantagem de sua posição, mas se igualou àqueles que o cercavam, escolhendo viver de modo humilde.

Seu processo de humilhação não se limitou a viver como um homem comum, mas enfrentar a morte, e pior, a morte de cruz! A crucificação era uma condenação extremamente humilhante. Normalmente quem era crucificado ficava horas e até mesmo dias agonizando em público, sem roupa, enquanto ouvia chacotas  de quem por ali passava. Realmente, era maldito quem era pregado em uma cruz! E Cristo assim o fez, tornando-se maldição por nós.

No texto, Paulo indica que a humilhação de Cristo foi movida pela obediência. Como? Werneer de Boor, explica o versículo 8 da seguinte forma:

Pecado é desobediência! Pecado é a autonomia arrogante que se contrapõe a Deus: quero ter minha própria vida, não quero obedecer, quero seguir minha própria vontade. “Dá-me, Pai, a parte dos bens que me cabe”. Ou, potenciado à máxima insolência: nem mesmo existe um “Pai” que tenha algo a me dar, tudo é simplesmente meu! A primeira desobediência no paraíso desencadeou a avalanche da desobediência, aquela avalanche de desgraças, de trevas e sofrimentos que chamamos de “história universal”. Cada pecado individual volta a ser desobediência, os menores pecados são desobediência, aumentando essa avalanche e sendo arrastados por ela. Deus fala, Deus adverte e suplica. Eu, porém – não quero! Essa é a dor do Filho que ama o Pai: Pai, como te desonram com sua desobediência devota ou insolente, todos eles, todos! Pai, deixa-me restabelecer a tua honra! Quero espontaneamente demonstrar que obedeço a ti como um escravo obedece a seu senhor. Pai, ordena-me o mais terrível. Pai, diante de todos os anjos e diante dele, o autor de toda desobediência contra ti, eu serei obediente! “Humilhou-se, pois, a si mesmo, feito obediência até a morte, porém, à morte da cruz”(*).

Assim, Jesus vai na contramão de toda a arrogância inerente à condição humana, entendendo que o caminho que deveria trilhar era o da obediência e da humildade. Para Paulo esta era a mensagem que deveria ficar impregnada no coração dos filipenses: de nada adiantar ostentar força e poder com o objetivo de sobressair-se, já que o dono de toda a força e poder decidiu percorrer o caminho contrário, humilhando-se a si mesmo.

Paulo conclui a sentença mostrando que Cristo ganhou um nome que é sobre todo o nome. Ou seja, a exaltação final de Cristo colocou-o em um patamar que subsiste às limitações de tempo ou espaço. Por mais que o tempo passe ou as coisas mudem o nome de Jesus continua sendo o centro de todo o Universo. Assim, Paulo quer mostrar que o caminho da humildade e da auto-humilhação, diferente do que se possa pensar a princípio, é o caminho mais glorioso que se pode trilhar!

Na próxima postagem falaremos sobre a aplicação que Paulo faz da passagem que estudamos hoje para a vida cotidiana dos filipenses.

Ate lá e um abraço a todos e todas!

Referências:
(*) BOOR, Werner de. Carta aos efésios, filipenses e colossensesComentário Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Espernça, 2006. - p.31

Mais no Blog:
O que dizer diante da cruz
Sobre deuses e redes


sábado, 13 de julho de 2013

Mais uma dica para o estudo do livro de Filipenses

Na semana passada indicamos aqui no blog mensagem do Pr. Hernandes Dias Lopes sobre o livro de filipenses, no intuito de oferecer um exemplo de aplicação prática da mensagem desta importante carta paulina.





Hoje indico mais uma mensagem, desta vez ministrada pelo pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo - capital (IBAB) Ed René Kivitz (foto). Na realidade trata-se de uma série de mensagens ministradas no ano de 2010 baseadas na carta de Paulo aos filipenses, sob a orientação do livro de Warren Wiersbe, Seja Alegre.

Compartilho hoje a mensagem inicial da série, Alegria em todas as circunstâncias, que tem tudo a ver com a lição 2 da Revista da CPAD deste trimestre. Vale a pena conferir. No link abaixo é possível acompanhar a íntegra da mensagem.

Alegria em todas as circunstâncias - Clique aqui para ouvir

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O comportamento dos salvos em Cristo (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 1.27 - 2.4


Como vimos na postagem anterior, quando escreve aos filipenses Paulo relembra as situações vexatórias pelas quais havia passado e ainda estava passando por conta de seu trabalho na causa do Evangelho, mas fala também da forma como lidava com tais situações: sua motivação estava no fato de, mesmo preso e com grande chance de ser condenado à morte, estar contribuindo para o progresso do Evangelho.

Depois desta palavra inicial no 1º capítulo, o foco deixa de ser o sofrimento de Paulo e passa a ser a postura cristã dos filipenses. Não era apenas Paulo quem sofria por conta do Evangelho, mas também seus leitores. Vale a pena lembrar que a cidade era uma colônia romana e que a igreja fora fundada ali debaixo de grande confusão e agitação social. Não era fácil ser cristão em Filipos. Assim, a partir de Fl 1.27 a pergunta que se procura responder é : como ser cristão em uma cidade como Filipos?

O primeiro conselho de Paulo é que os filipenses não colocassem sua esperança em um possível retorno do apóstolo para a comunidade. Todos sabiam que aquela poderia ser a última prisão dele, e que poderiam nunca mais vê-lo, por isso Paulo escreve: quer eu vá e os veja, quer apenas ouça a seu respeito em minha ausência, fique eu sabendo que vocês permanecem firmes num só espírito, lutando unânimes pela fé evangélica (Fl 1.27 - NVI). Assim, o ânimo dos filipenses deve firmar-se sobre o fato de estarem andando de acordo com o Evangelho, ou como traduzido na NVI, exercendo a cidadania de acordo com o Evangelho. Em uma cidade considerada colônia romana, cujos habitantes desfrutavam da cidadania romana, a ideia de uma cidadania fundada no Evangelho tem um efeito de destaque.

Com relação à resistência enfrentada, Paulo explica que aos irmãos de Filipos foi concedido um duplo privilégio: além de crerem em Cristo, têm a oportunidade de sofrerem por ele. Para o apóstolo, sofrer por Cristo significa partilhar de uma experiência da qual o próprio Senhor passou. Merece destaque aqui a visão que os primeiros cristãos tinham sobre o sofrimento: o simples fato de sermos cristãos muitas vezes nos leva até ele e devemos enfrentá-lo com firmeza, de modo a testemunhar nossa fé. Cristo  é o exemplo maior. Assim, para enfrentar o sofrimento e a resistência, os filipenses deveriam fazer como Paulo fez e explicou nos versículos anteriores: devem preocupar-se com o Evangelho, fazendo com que as tribulações apontem para Cristo.

Assim, na parte final do capítulo 1, Paulo fala do cuidado que os filipenses teriam de tomar com relação à resistência externa. No entanto, a partir do capítulo 2, a preocupação é outra. Neste capítulo o foco está nas relações internas da Igreja, na forma como os irmãos deveriam relacionar-se.

Pensando na relação entre a preocupação com a resistência externa e os problemas internos da igreja, lembro-me de uma ilustração proposta por C.S. Lewis no clássico "Cristianismo Puro e Simples" (que é aliás um dos melhores livros que já li). Lá ele compara a jornada cristã com um grande número de barcos navegando para o mesmo destino. Ao mesmo tempo em que cada capitão deve estar atento com o que acontece dentro de seu próprio barco, garantindo a alimentação de sua tripulação, deve estar atento também ao caminho geral que está sendo percorrido pelos demais barcos.

Assim deve acontecer também com a igreja e com cada cristão em particular: é necessário estar atento à resistência externa para que esta não lhe roube as forças, no caso dos filipenses a perseguição e pressão da sociedade romana. Também deve-se dar atenção aos problemas que podem surgir internamente, no caso dos filipenses as dificuldades de relacionamento interpessoal, que embora ainda não fossem um problema generalizado na igreja, poderiam se tornar em uma grande barreira para que a igreja cumprisse sua missão (o tema aparecerá em outras partes da carta).

A Igreja de Filipos só aguentaria a pressão da sociedade se estivesse unida e disposta resolver quaisquer problemas de relacionamento que enfraquecessem sua coesão interna. Por isto Paulo aconselha: cada um deve considerar os outros superiores a si mesmo. Logicamente isto não significa adotar uma posição ingênua diante dos defeitos dos demais irmãos, mas reconhecer a dignidade que a graça de Deus concedeu a cada um, de modo a que todos sintam-se envolvidos no mesmo objetivo cristão.

Neste ponto a carta toca em um dos aspectos mais complicados da natureza humana: o orgulho. Sem dúvida um dos maiores desafios para qualquer pessoa é deixar seus próprios interesses de lado e pensar no outro, mesmo que este outro não possa contribuir em nada para seu projeto pessoal. Assim, para resgatar o ideal de abnegação e humildade no coração dos filipenses Paulo usa o exemplo de Cristo e escreve uma das passagens mais marcantes do Novo Testamento, que será tema da próxima aula da EBD e de nosso próximo post desta série.

Abraço a todos e todas!

Referências:
DAVIDSON, F (ed). O novo comentário da Bíblia. 3 ed. São Paulo: Vida Nova, 1997
HARRISON, Everett F (org). Comentário Bíblico Moody - vol 5. São Paulo: Batista Regular, 1999
LEWIS, C.S. Cristianismo puro e simples. 2ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Dica para o estudo do livro de Filipenses

No próximo domingo, dia 7, Escolas Dominicais de todo o país que utilizam a Revista da CPAD iniciarão o estudo da carta de Paulo aos Filipenses. 
Creio que todo o ensino bíblico ministrado em um trabalho ao estilo da Escola Dominical necessita obrigatoriamente de dois fatores: a explicação do texto bíblico e a aplicação para a vida prática. Trocando em miúdos: o aluno deve entender basicamente o que Paulo estava querendo dizer aos filipenses, e paralelamente conseguir tirar lições para a sua própria vida. Cabe ao professor conseguir equacionar e apresentar estes dois aspectos aos alunos. 
No vídeo a seguir temos um excelente exemplo de aplicação da carta de Paulo aos filipenses para a vida dos cristãos no século XXI. Trata-se da mensagem "ladrões de alegria" ministrada pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes na Igreja Assembleia de Deus de Blumenau em 2012. 
Logicamente o vídeo não é de uma aula de EBD, mas oferece importantes elementos que podem contribuir para responder a pergunta que pode surgir na mente de muitos alunos da Escola Dominical neste trimestre: o que eu tenho a ver com a carta aos filipenses? 
Vale a pena conferir!


Abraço a todos e todas!

Veja também:
Mais uma dica para o estudo do livro de Filipenses
Paulo e a Igreja em Filipos (comentário da 1ª lição)
Esperança em meio à adversidade (comentário da 2ª lição)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Esperança em meio à adversidade (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fl 1.12-26

Como já comentamos na postagem anterior, existia entre Paulo e a Igreja de Filipos uma proximidade fraternal bastante forte. Tudo indica que os leitores da carta estavam realmente preocupados com a situação do apóstolo, e queriam saber o que tinha acontecido com ele desde a última vez em que tinham recebido notícias suas. Desta forma, antes de discutir questões doutrinárias e escrever conselhos aos leitores, Paulo fala acerca de sua situação pessoal (que aliás não era das melhores!), com o objetivo de aliviar o preocupado coração dos filipenses.

Segundo a linha de raciocínio de Werner de Boor, é bastante provável que no momento em que escreve aos filipenses Paulo já não estivesse na prisão domiciliar, na qual ficou por pelo menos dois anos em Roma (situação a que se referem os dois últimos versículos do livro de Atos dos Apóstolos). É possível que Paulo tivesse sido transferido para uma prisão de fato, onde era vigiado pela guarda pretoriana (se no entanto ele ainda estava em prisão domiciliar, podemos afirmar que, de qualquer forma, era vigiado por pelo menos um guarda deste destacamento). Assim, enquanto aguardava notícias sobre o processo judicial em que estava envolvido, Paulo perdera sua liberdade e para cúmulo dos males, ouvira falar de irmãos que egoisticamente pregavam o Evangelho com o mero objetivo de fazê-lo sofrer mais ainda na prisão, talvez imaginando que desta forma despertariam nele o sentimento de impotência. Sem falar no fato de que, tanto Paulo quanto os filipenses soubessem que a condenação à morte para o apóstolo era muitíssimo provável.

Além de todos estes problemas, Paulo já tinha passado por diversas situações constrangedoras e que lhe trouxeram inúmeros sofrimentos. Em II Coríntios 11 ela oferece uma lista destes momentos angustiantes. Com a palavra, o próprio apóstolo Paulo:

 "Cinco vezes recebi dos judeus trinta e nove açoites.Três vezes fui golpeado com varas, uma vez apedrejado, três vezes sofri naufrágio, passei uma noite e um dia exposto à fúria do mar. Estive continuamente viajando de uma parte a outra, enfrentei perigos nos rios, perigos de assaltantes, perigos dos meus compatriotas, perigos dos gentios; perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, e perigos dos falsos irmãos. Trabalhei arduamente; muitas vezes fiquei sem dormir, passei fome e sede, e muitas vezes fiquei em jejum; suportei frio e nudez.Além disso, enfrento diariamente uma pressão interior, a saber, a minha preocupação com todas as igrejas." (2 Coríntios 11:24-28 - NVI)

Sem dúvida todo o histórico de sofrimentos do apóstolo somado à falta de perspectivas quanto a sua saída da prisão, normalmente levariam qualquer pessoa à desesperança completa. Mas não foi o que aconteceu com Paulo.

Se tivéssemos que resumir a carta aos filipenses em uma palavra, o termo ideal seria "alegria". O fundamento da alegria cristã é o tema geral sob o qual gravitam todos os demais assuntos da epístola. Não que Paulo tivesse escrito pensando: "vou elaborar uma carta cujo tema central é a discussão doutrinária sobre o que é alegria". Não. A alegria é um tema que surge de forma natural a medida que o apóstolo vai falando de sua situação e de sua esperança. A alegria brota espontaneamente dos lábios de Paulo enquanto ele fala de sua maior aspiração: ser como Cristo e enquanto se dedica a este propósito, fazer o possível para que seu Evangelho chegue ao maior número de pessoas, mesmo que no meio de tudo isto estejam presentes a dor, a humilhação, o sofrimento e mesmo a morte.

Ao falar sobre seu sofrimentos, Paulo não quer passar uma imagem de auto-piedade ou mesmo indicar que estava desistindo de seguir em frente. Embora soubesse que a morte poderia estar muito perto, Paulo se revigorava com o fato de que ainda poderia contribuir com o crescimento do Evangelho enquanto estivesse vivo. Aliás, na própria prisão fazia questão de evangelizar os militares da guarda pretoriana, sem contar o fato de saber que sua prisão motiva outros a também se dedicarem à pregação (embora alguns por motivos egoístas, mas tantos outras de "boa mente"). Esta é a base de sua alegria, e que lhe motivava a continuar vivo: contribuir para a proclamação da Palavra de Cristo. Neste contexto surge a palavra "esperança", escolhida pela CPAD para embasar a lição de hoje.

A esperança de Paulo não se apoiava no fato de ser liberto da prisão, mas em saber que, se ele fosse solto, se continuasse preso ou mesmo se fosse morto, de qualquer forma o desfecho de sua vida lhe "resultaria em salvação" (Fl 1.19). Ou seja, além de sua própria salvação, outros também poderiam conhecer a Cristo, e isto era o mais importante.

Penso que esta lição nos oferece a oportunidade de pensarmos sobre qual é motivação maior de nossa vida. Paulo estava certo disso! A frase do pastor Martin Luther King Jr (1929-1968) se encaixa perfeitamente no contexto desta lição: "Quem não tem uma causa pela qual morrer não tem um motivo para viver". Que estejamos certos dos motivos que nos norteiam como cristãos!

Abraço a todos e todas!



Referências:
BOOR, Werner de. Carta aos efésios, filipenses e colossenses: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Espernça, 2006.
DAVIDSON, F (ed). O novo comentário da Bíblia. 3 ed. São Paulo: Vida Nova, 1997.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Paulo e a Igreja em Filipos (Série Filipenses na Escola Dominical) - Fil 1.1-11



A carta de Paulo aos Filipenses é nutrida por sentimentos de proximidade em meio a distância. Os primeiros versículos mostram uma profunda afeição entre Paulo e seus leitores. Esta afeição é fruto de uma história antiga envolvendo o apóstolo e os crentes da cidade de Filipos.

Assim, creio que antes de falar sobre a carta aos filipenses, devemos voltar nosso olhar ao livro de Atos dos Apóstolos (cap. 16), onde a história de Paulo na cidade começa. Na ocasião Paulo, acompanhado de Silas, realizava sua segunda viagem missionária. No entanto, não estava em seus planos ir à Macedônia, distrito cuja principal cidade era Filipos. Paulo queria ir à Ásia e depois à Bitínia, porém nos dois casos, "o Espírito do Senhor não permitiu" (At 16.6,7). Foi então que o apóstolo teve uma visão em que um jovem macedônio lhe pedia ajuda. Assim, a ida de Paulo para Filipos aconteceu sob circunstâncias não comuns. Em sua passagem pela cidade contou com a companhia de Silas e Lucas, o escritor de Atos dos Apóstolos.

Filipos era uma importante cidade no Império Romano, uma das poucas a receber o título de colônia romana. Diferente do que normalmente acontecia, a aproximação de Paulo com os moradores da cidade não aconteceu na sinagoga, mas a beira de um rio, onde os judeus costumavam orar (ao que parece, a comunidade judaica não era muito grande na cidade). A primeira pessoa a receber o Evangelho foi Lídia, uma comerciante que teve destaque na formação da igreja de Filipos.

Na cidade, dois outros eventos conhecidos no ministério de Paulo tiveram lugar: o primeiro deles foi a expulsão do espírito de adivinhação de uma jovem, que devido as suas "habilidades", costumava dar muito lucro aos seus senhores. O fato levou Paulo e Silas à prisão, após serem açoitados publicamente. Lá, aconteceu o segundo evento de destaque: o terremoto na prisão, que aconteceu quando Paulo e Silas cantavam, perto da meia-noite (abro aqui um parenteses para lembrar que o terremoto não aconteceu para que os missionários fossem libertos da prisão, mas para permitir que o carcereiro e sua família se convertessem. Depois de pregarem para eles, Paulo e Silas voltaram à prisão e foram soltos apenas no outro dia, por ordem das autoridades da cidade. Creio que este poderá ser o tema para um próximo post).

A cidade de Filipos era bastante identificada com os valores e religiões romanas. Ao ser preso, Paulo e Silas foram acusados de perturbarem a cidade com costumes judaicos. O magistrados se espantaram ao descobrirem que Paulo também era romano, e por isto os soltaram.

Quanto à comunidade cristã que se formou em Filipos, os relatos são bastante positivos: em At 16, os irmãos reunidos na casa de Lídia confortaram Paulo e Silas após sua prisão. Em outras ocasiões contribuíram financeiramente com os irmãos necessitados da Judéia e posteriormente sustentaram também o próprio apóstolo Paulo.

Assim, quando Paulo escreve sua carta aos filipenses é bem provável que em sua mente estivessem as lembranças de todos estes momentos. De fato, quando a carta foi escrita, Paulo tinha acabado de receber uma contribuição generosa dos irmãos de Filipos, enviada por intermédio do irmão Epafrodito, que acabou ficando doente, quase chegando à morte.

A carta aos filipenses teve desta forma três objetivos práticos: tranquilizar os irmãos quanto à saúde de Epafrodito, recomendar Timóteo aos irmãos (ele iria para lá e é possível que a igreja ainda não o conhecesse bem) e mostrar sua gratidão pelo apoio constante daquela comunidade e em especial pela contribuição recebida. S.E. McNair chama a carta de recibo, "o mais belo recibo de toda a literatura"  

Não há concordância quanto ao local de escrita da carta, embora não haja dúvidas de que Paulo a escreveu enquanto estava preso (ele diz isto categoricamente). Paulo informa ter sido preso várias vezes (Clemente de  Roma, no fim do século I, afirmou que ele ficou encarcerado sete vezes), no entanto, enquanto escrevia aos filipenses, Paulo conseguia interagir com as igrejas e até receber visitas. Tais condições reforçam a ideia de que a carta foi escrita em Roma, enquanto Paulo estava em prisão domiciliar, esperando seu julgamento final (At 28).

Assim, mesmo encarcerado e certo de sua condenação, Paulo não deixou de celebrar a amizade e o carinho que nutria para com os filipenses, e escrever a sua mais alegre carta. Isto não o impediu, no entanto, de tratar de problemas pontuais naquela comunidade, como veremos nas próximas semanas.

Abraço a todos e todas.

Referências: 
CARSON, D.A; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Inttrodução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997
McNAIR, S.E. A Bíblia Explicada. 4ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1997


terça-feira, 7 de maio de 2013

Filipenses: eis o tema das Revistas da CPAD para a EBD no 3º Trimestre de 2013.

A CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus) divulgou recentemente o tema que será abordado nas Escolas Dominicais de todo o país que utilizam a sua revista, para o 3º Trimestre de 2013. Trata-se da Carta de Paulo aos Filipenses. o subtítulo escolhido foi: "A humildade de Cristo como exemplo para a Igreja
A escolha do tema reflete a perspectiva que a CPAD vem adotando já há algum tempo de anualmente estudar um livro ou assunto relacionado ao Antigo Testamento e outro ao Novo Testamento, deixando os dois trimestres restantes para assuntos com temática mais abrangente. 
Fico feliz pela escolha do livro de Filipenses, carta escrita por Paulo quando estava aguardando julgamento em prisão domiciliar, e que, apesar de tais circunstâncias  é chamada por Eugene Peterson de "a carta mais alegre de Paulo". Nela, aprendemos a partir do exemplo de Cristo o valor da humildade e a verdadeira base da alegria cristã. Que nos legremos durante este trimestre! 


Eis o título das lições (clique no título das lições para ler nossos comentários):

1 - Paulo e a Igreja em Filipos ;
2 - Esperança em meio à adversidade;
3 - O comportamento dos salvos em Cristo;
4 - Jesus, o modelo ideal de humanidade;
5 - As virtudes dos salvos em Cristo;
6 - A fidelidade dos obreiros do Senhor;
7 - A atualidade dos conselhos paulinos;
8 - A suprema aspiração do crente;
9 - Confrontando os inimigos da cruz de Cristo;
10-A alegria dos salvos em Cristo;
11-Uma vida cristã equilibrada;
12-A reciprocidade do amor cristão;
13-O sacrifício que agrada a Deus.

Vale a pena lembrar que o 3º Trimestre na EBD começa no dia 7 de Julho e estende-se até o dia 29 de setembro.

Abraço a todos e todas!

Veja também:
Uma dica para o estudo de Filipenses
Comentários das lições

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