sexta-feira, 29 de junho de 2012

Os pentecostais no Censo 2010: Assembléia de Deus chega aos 12 milhões. Igreja Universal e Congregação Cristã diminuem


Na manhã deste dia 29 de junho, o IBGE divulgou os resultados do Censo 2010 sobre religião. Como já comentamos na postagem anterior, os evangélicos chegaram à cifra de 42,3 milhões (22,2% da população). O ano da realização do Censo coincidiu com o centenário da chegada do pentecostalismo ao Brasil. De acordo com os dados do IBGE, 6 de cada 10 evangélicos brasileiros declara-se pentecostal.
O ranking das cinco maiores igrejas pentecostais do país permaneceu inalterado, porém, apresentou interessantes diferenças em relação ao Censo 2000.
A Igreja Assembléia de Deus apresentou um crescimento de 46%, saltando dos 8,4 milhões de membros para 12,3 milhões, continuando a ser a maior igreja evangélica e o segundo maior grupo religioso do país, perdendo em números apenas para a Igreja Católica. Vale a pena lembrar que o Censo não faz distinção entre os diferentes ministérios da AD. Assim, os 12 milhões de assembleianos estão espalhados em uma série de ministérios e convenções independentes, das quais a maior e mais antiga é a CGADB (Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil), fundada em 1930. Há diversos ministérios dentre os quais destacam-se: Belém, Madureira, Perus, Ipiranga, Santos, Bom Retiro, dentre centenas de outros.
Algo curioso diz respeito à diminuição do número de membros das Igrejas Congregação Cristã do Brasil e Universal do Reino de Deus. A Congregação, amplamente conhecida pelos seus templos de cor cinza e janelas com arcos góticos, perdeu quase 200 mil fiéis, passando de 2,4 para 2,2 milhões de membros. No entanto, continua sendo a segunda maior igreja pentecostal do país. Diferentemente da Assembléia, a Congregação Cristã não está dividida em ministérios, representando, portanto, uma única instituição.
Impressiona também a diminuição do número de membros da Igreja Universal do Reino de Deus, amplamente conhecida pelo intenso uso dos meios de comunicação para divulgação de sua mensagem. A IURD passou de 2,1 milhões para 1,8 milhões, o que indica que o trânsito religioso entre diferentes igrejas tem afetado a denominação. Vale a pena comentar aqui o surgimento da Igreja Mundial do Poder de Deus, que tem se transformado em uma das principais opções para quem deixa a IURD. No Censo, a Igreja Mundial não foi classificada individualmente, estando agrupada no grupo "Outras igrejas evangélicas de origem pentecostal", do qual falaremos mais a frente.
A Igreja do Evangelho Quadrangular e a Igreja Deus é Amor (que em junho deste ano completou seu jubileu de ouro), aumentaram o seu número de membros. Enquanto a IEQ saltou de 1,3 milhão para 1,8 milhão, a IPDA ganhou 70 mil membros, passando dos seus 774 mil para os 845 mil adeptos.
A Igreja O Brasil para Cristo passou de 175 mil para 192 mil, a Maranata de 277 mil para 356 mil, a Casa da Benção de 128 mil para 125 mil e a Vida Nova (de onde se originou a Universal) de 92 mil para 90 mil.
Também merece destaque o crescimento do grupo "Outras igrejas evangélicas de origem pentecostal", que passou de 1,8 para 5,2 milhões (!). Deste grupo fazem parte igrejas mais conhecidas como Renascer em Cristo, Igreja da Graça, Mundial do Poder de Deus e Avivamento Bíblico, além das variadas igrejas pentecostais autônomas, presentes em uma variada gama de diferentes congregações, espalhadas principalmente pelas regiões de periferia das grandes metrópoles. (em minha pesquisa de mestrado, realizada no bairro paulistano de Perus em 2010, encontrei cerca de 60 diferentes denominações pentecostais em um bairro com 70 mil habitantes). O crescimento de 3,4 milhões de pessoas neste grupo, bem como o aumento de 180 mil para 777 mil dos que se denominam como membros de "Comunidades Evangélicas" indica interessantes mudanças comportamentais, institucionais e doutrinárias no campo religioso pentecostal brasileiro.
Este é apenas um olhar preliminar sobre o Censo. Sem dúvida, há muito o que se pesquisar entre todos estes números!

Acabam de ser divulgados os resultados do Censo 2010 sobre Religião


O IBGE acaba de divulgar os resultados do Censo 2010 referentes à religião. Também foram divulgados dados sobre cor ou raça, características gerais da população e pessoas com deficiência. 

Uma primeira observação geral sobre os resultados referentes à religião aponta para uma tendência que já vem sendo observada nas últimas décadas: a diminuição do número de católicos e o aumento dos evangélicos (em especial dos pentecostais)  dos sem religião.  
Os católicos passaram de 73,6% da população em 2000 para 64,6% em 2010 (cerca de 123 milhões de adeptos em um universo de 190 milhões de habitantes. No ano 2000 eram 125 milhões em um universo de 169 milhões de habitantes), já os evangélicos passaram de 15,4% para 22,2% (um aumento de 16 milhões em dez anos, já que em 2000 eram 26,2 milhões e chegaram 42,3em 2010). 
Os sem religião, passaram de 7,3% para 8,0%, um aumento de 2,8 milhões. Vale a pena lembrar que o grupo "sem religião" não é formado necessariamente por ateus, mas por pessoas que não estão ligadas a nenhuma instituição religiosa, embora possam exercer suas crenças pessoais. Os ateus propriamente ditos somam  cerca de 615 mil pessoas, enquanto os agnósticos 124 mil. Os espíritas passaram de 1,3% (2,3 milhões) da população para 2,0% (3,8 milhões). Enquanto os praticantes da umbanda e camdomblé mantiveram-se em 0,3% (cerca de 570 mil pessoas em 2010). 
Na próxima postagem comentarei as mudanças nos números das igrejas pentecostais.  

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Igreja Deus é Amor completa 50 anos


A Igreja Pentecostal Deus é Amor completou cinquenta anos de Fundação no último dia 3 de Junho. As comemorações oficiais aconteceram no dia 10 de junho, com realização de eventos públicos e concentração no templo sede da denominação, na Baixada do Glicério em São Paulo (foto ao lado) 

Fundada pelo missionário David Miranda na década de 1960 em São Paulo, a igreja está presente em mais de uma centena de países e de acordo com dados do IBGE, no ano 2000, era a quinta maior igreja pentecostal do país, com cerca de 770 mil membros (as 4 primeiras eram a Assembléia de Deus, com 8,4 milhões, Congregação Cristã do Brasil, com 2,4 milhões, Universal do Reino de Deus, com 2,1 milhões e Quadrangular, com 1,3 milhão). 
A Igreja Deus é Amor é um interessante fenômeno  no campo religioso brasileiro, tendo como uma de suas principais ferramentas o uso do rádio e mensagens centradas na cura divina. Para quem se interessa por estudos acadêmicos sobre a igreja, vale a pena conhecer a dissertação de mestrado em Ciências da Religião de Emílio Mendonça, Igreja Pentecostal Deus é Amor: origens, características e expansão (disponível aqui), bem como os textos (como este) do Prof. Paulo Barrera, que estudou aspectos da Igreja em sua pesquisa de doutorado.  
Nossos parabéns a todos os membros da Igreja Deus é Amor! 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Subjugo meu corpo: uma reflexão de I Co 9.27

" Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado" - I Co 9.27


No capítulo 9 de I Coríntios Paulo está se defendendo. Neste capítulo ele apresenta seus argumentos contra aqueles que, na igreja de Corinto, não o consideravam um apóstolo legítimo. Sua defesa gira em torno de seu procedimento entre os irmãos, principalmente no que diz respeito à sua vida financeira. (Parece que este tema já alterava ânimos desde aquela época...)
O versículo 27 é a última sentença de sua defesa neste capítulo. Neste versículo Paulo deixa transparecer uma de suas maiores preocupações: que sua pregação "batesse" com o que ele vivia, ou seja, que a sua vida particular fosse condizente com seu discurso público.
Sempre é possível alcançar certo grau de credibilidade em um grupo religioso sem necessariamente viver de acordo com o que se prega neste grupo. Trocando em miúdos: é possível falar de honestidade e ser desonesto. É possível incentivar uma vida de oração sem nunca colocar os joelhos no chão. É possível promover um momento comunitário de adoração a Deus estando com o coração distante do caminho do louvor.... Enfim, exemplos não faltam...
Paulo reconhece que tentar colocar o que se prega e o que se vive em uma mesma linha pode ser uma tarefa extremamente difícil. Aliás, tal necessidade só pode ser alcançada por intermédio da disciplina pessoal: nos versículos anteriores, Paulo se compara a um atleta que, para alcançar seu objetivo, "de tudo se abstém". Já no  versículo que destacamos, o apóstolo vai mais longe e confessa que para viver de acordo com o que pregava, ele se sentia como alguém que reduzia o próprio corpo à escravidão, como alguém que esmurra o próprio corpo.
Alcançar credibilidade pode não causar nenhuma dor, mas dominar a si próprio causa! Mostrar aos outros suas habilidades religiosas adquiridas por hábito não causa grandes embaraços, mas provar a si mesmo que as demonstrações religiosas estão de acordo com a essência do que está dentro do coração, pode ser um processo árduo e trabalhoso... Eis a dificuldade de Paulo, e por que não dizer nossa própria dificuldade em todo o percurso da vida cristã...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Deus? Que Deus?


Com estas palavras o humorista Chico Anysio intitulou uma postagem em seu blog na semana passada, onde questiona a morte do jovem Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães, atropolelado em um túnel do Rio de Janeiro na madrugada de terça-feira, dia 20 de julho de 2010.


Chico expressa seus sentimentos com as seguintes palavras: " Deus é onisciente? Então ele sabia que o Rafael teria que morrer naquele dia, naquela hora e daquele modo. Sendo assim, deixo a disposição de todos a minha parte de Deus, porque se ele tem tantos 'onis' e o mundo está como está, prefiro ficar sozinho"


Longe de desconsiderar a dor sofrida pela família enlutada (e não apenas desta família em particular, mas de tantas outras que sofrem dramas semelhantes diariamente em todo o mundo), me pus a pensar sobre o epísódio e ao comentário de Chico sobre a companhia de Deus. O humorista afirma que prefere ficar sozinho.


O Deus das Escrituras não prefere ficar sozinho. Decidiu amar ao ser humano, demonstrando constante disposição de permanecer ao seu lado. O Deus das Escrituras assumiu a forma humana apenas por pensar no homem e nos dilemas do contraditório mundo em que vivemos. O Deus das Escrituras foi até as últimas consequencias para estar junto de sua criatura, e entenda-se por últimas consequencias a sanguinária morte de cruz. Por não querer ver o ser humano entregue às garras da morte, o Deus das Escrituras decidiu enfrentar a própria morte apenas para demonstrar seu apreço por seres humanos como qualquer um de nós.


O universalmente conhecido Salmo 23 celebra a companhia de Deus. O salmista Davi tinha confiança para acreditar que o Senhor era o seu pastor tanto nas águas tranquilas (versículo 2), quanto no vale da sombra da morte (versículo 4), por saber que a misericórdia do Senhor o seguiria todos os dias da sua vida (versículo 6). Para Davi a tragédia não era o momento em que Deus estava ausente, mas o momento onde sua mão e seu cajado o consolariam.

Por amar o ser humano, o Deus das Escrituras lhe concedeu plena liberdade para viver como bem entendesse. Alguns preferem respeitar a seu próximo e zelar pelo bem dos que o cercam, enquanto outros preferem dirigir seu carro (e sua vida) inadvertidamente, ceifando a vida de outros enquanto se auto-destroem. A escolha humana que origina o caos no mundo, no entanto, não anula o amor do Deus que escolheu estar na companhia de seres humanos.


Eu prefiro a companhia de Deus.


terça-feira, 29 de junho de 2010

Bonita, mas vazia!





Uma expressão usada por Jesus me chamou bastante atenção. Para falar da incredulidade dos fariseus, o Mestre propõe uma parábola: quando um espírito maligno deixa um homem, anda por lugares áridos, buscando refúgio e não o encontra. Então decide voltar para a casa de onde havia saído e a encontra varrida e adornada. Em seguida, traz sete espíritos piores do que ele para ali habitarem também. A conclusão de Cristo é clara: o último estado deste homem é pior que o primeiro.

Jesus acabara de libertar um homem de um demônio que o deixava cego e mudo. Os fariseus presentes na ocasião insinuaram que a autoridade de Cristo em libertar o homem não era divina, mas provinha de Belzebu, o príncipe dos demônios. A pequena ilustração foi um dos comentários de Cristo diante do acontecido, uma clara crítica à reação dos fariseus, que naquele momento representavam a religião oficial de Israel, diante da libertação do endemoniado. A casa citada por Jesus é uma referência àqueles lideres religiosos. Mas o que Cristo quis dizer em compará-los a uma casa varrida e adornada?

Não parece ser uma crítica dizer que alguém está com seu interior varrido e bem arrumado.

A crítica está em outra característica da casa: apesar de arrumada, ela se encontra desocupada. Jesus sempre fez questão de mostrar que os fariseus possuíam todas as ferramentas necessárias para compreender que Ele era o Cristo. Por diversas vezes atentou para o fato de que as Escrituras apontavam para si próprio e sua missão.

No entanto, a maioria dos fariseus e saduceus jamais foram capazes de discernir esta verdade no Livro da Lei e nos Profetas que tanto veneravam e defendiam. Mesmo se sentando na cadeira de Moisés e declarando-se filhos de Abraão, não conseguiram enxergar o Profeta apontado por Moisés e alvo da fé de Abraão. O pecado dos fariseus não estava em sua falta de conhecimento da Lei, eles a conheciam bem: discutiam constantemente os 613 mandamentos da Torá, argumentavam sobre as diferentes escolas rabínicas e suas interpretações das minúcias da Lei, a história de Israel era matéria básica para eles. Definitivamente, seu problema não era de acesso às Escrituras. O seu problema também não era com a falta de zelo para com esta Lei, pois procuravam mostrar a todos o quanto estavam dispostos a cumpri-la até mesmo em seus mais rudimentares detalhes. Em certa ocasião Jesus aconselhou seus ouvintes a estarem atentos aos ensinos dos fariseus, embora não devessem copiar seu comportamento.

Os fariseus criam que sua casa estava em ordem. Por serem respeitados como intérpretes da Lei, acreditavam que seu interior estava bem varrido e adornado, já que oravam, jejuavam e procuravam praticar a justiça aos olhos de todos.

Mas do que adianta adornar uma casa que está vazia? De nada adianta enfeitar uma sala onde ninguém se assentará ou preparar uma cama onde ninguém dormirá. O cuidado com uma casa é justificado em função de quem nela habita ou de quem a visitará, uma casa abandonada não precisa ser arrumada se for continuar abandonada.
Esta era a espiritualidade dos fariseus: a rejeição do verdadeiro Deus manifestado através de Cristo tornava sem sentido as orações, jejuns, esmolas e todas as outras práticas efusivamente proclamadas por eles. A casa estava adornada e varrida pelo conhecimento da Lei e adornada pela pratica piedosa, mas estava desocupada. O Deus que deveria ser agradado pelo asseio doméstico do coração estava ausente e seu lugar estava vago.

O problema maior vem depois: a casa vazia é um convite para que um indesejável morador a ocupe e traga consigo sete piores do que este. Jesus procurou mostrar que, mesmo sendo religiosos respeitados, a atitude dos fariseus em rejeitá-lo abria espaço em seus corações para uma série de sentimentos malignos que os transformariam em pecadores piores que aqueles que tanto criticavam.
Jesus pregava para “publicanos, e pecadores” e recebia duras críticas por isto. Estes eram personagens com a casa desordenada e suja. Porém, demonstraram o desejo de limpá-la, organizá-la e habitá-la. Neste sentido é que entendemos porque meretrizes e pecadores precederiam mestres da Lei no reino dos céus. O convite de Jesus: “deixe-me pousar em sua casa”, era atendido por publicanos como Zaqueu, enquanto fariseus limpavam uma morada vazia.